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É Tudo Verdade | Copa de 71 (2023)

Captando a energia de uma partida de futebol, Rachel Ramsay e James Erskine transformam o protocolar em algo emocionante


Copa de 71 (2023)

É inimaginável hoje que em algum momento as mulheres foram proibidas de jogar futebol no mundo, ainda mais aqui, no Brasil. O país de Marta e Formiga compreende bem que o esporte, quando jogado por pessoas do gênero feminino, tende a ter muito menos público, apoio e prestígio, mas ser algo totalmente vetado já parece uma realidade quase pré-histórica. É com esse clima, mas em outro recorte, que Rachel Ramsay e James Erskine abrem seu longa sobre uma copa do mundo jamais reconhecida pela FIFA e totalmente desconhecida por muitos amantes do esporte, a copa feminina de 71, que aconteceu no México. Com poucos países, as atletas contaram com uma combinação de acaso e muita luta para conseguir levantar um evento que segue até hoje com a marca de maior público nos jogos femininos. Foi o esforço de montar essa copa e unir as seleções resistentes que fez com que os estádios e o país se unissem para promover e lotar as arquibancadas, já que só poderiam ser usados os locais fora do controle da FIFA e jogos vazios resultariam em um fracasso financeiro. Com estádios lotados e muitos sonhos, as jogadoras da Inglaterra, México, Dinamarca, Itália, França e Argentina fizeram uma história completamente apagada pelo poder das instituições e do patriarcado. E se hoje o esporte ainda sofre para receber apoio, mesmo quando conseguimos assistir aos jogos em televisão aberta, assistir a Copa de 71 vem como um choque de realidade, das desigualdades de ser mulher, mas acima de tudo, captando a energia do campo.


O protocolar do documentário se transforma aqui, são entrevistas bastante comuns intercaladas a imagens de arquivo, mas é o saber aproveitar seu material, humano e imagético, e o bom uso da trilha sonora e montagem, que levam o filme a um patamar mais emocionante. Assistir a cada partida remete a um sentimento típico do futebol, marcado pelo ritmo das músicas, sempre com intérpretes femininas, e a alternância entre os depoimentos das jogadoras, hoje já muito mais velhas, com as imagens reais de suas partidas. Como trata-se de um evento muito desconhecido, cada resultado é uma surpresa total para o espectador e enquanto o filme tece essa costura muito eficaz, seu debate sobre a desigualdade deixa um grande impacto. Essas mulheres que lotaram estádios foram rapidamente apagadas da história, não sendo lembradas nem ao menos por campeãs mundiais dos dias de hoje, que nunca tiveram acesso a esse marco do futebol. Não apenas o trabalho de Rachel Ramsay e James Erskine dá o devido crédito a essas seleções femininas, mostrando às gerações atuais o que a FIFA e a sociedade machista quis apagar, como também aproveita seu espaço para construir um debate de preconceitos no esporte. É de embrulhar o estômago ver como certas perguntas eram feitas às atletas, bem como compreender que públicos gigantescos não geraram um centavo sequer a essas mulheres.


Não é que hoje tudo se transformou radicalmente, é na verdade bastante espantoso pensarmos o quanto caminhamos e ainda assim estamos muito aquém do que deveria ser o cenário da mulher no futebol, ou em qualquer esporte que seja visto como masculino. Mas se falta algo para que Copa de 71 seja ainda mais abrangente, é incluir o Brasil nessa visão. Ao ver essas mulheres mais velhas, falando de seu passado no futebol, é de se pensar o que seria da sociedade se todas as meninas pudessem enxergar em suas próprias famílias exemplos de mulheres ativas em espaços tidos como masculinos. Como deve ser saber que sua avó foi uma jogadora de copa do mundo, como deve ser crescer em uma realidade em que é totalmente absurdo uma mulher ser proibida de praticar qualquer esporte que seja. As atletas da copa de 71 marcaram um exemplo oculto na história, que o documentário tenta recuperar, mas ainda que sua mensagem final seja de otimismo e orgulho, sabe-se que certamente ainda há muito a se conquistar.



 

Nota da crítica:

3,5/5


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