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Afire (2023) | MostraSP

Petzold confronta seu protagonista observador e deslocado com o fogo de apenas assistir passivamente à vida e nunca permitir realmente se queimar



Petzold é provavelmente um dos melhores diretores em atividade, certamente o que mais me instiga com seus trabalhos. Suas obras tendem a permanecer em nossas mentes depois que terminam, se alongam em nossa compreensão interna, não são sempre dos impactos imediatos em tela, mas sim dos sentimentos que perduram e se assentam silenciosamente em nossa memória. Romantizar aqui é essencial, faz parte da relação com os filmes do diretor Alemão, de planos finais profundos e das complexidades do ser humano em contato com outros. Em Afire, ele coloca um protagonista chato (não há palavra melhor, realmente), deslocado, com dificuldades para aproveitar as interações sociais e inseguro consigo mesmo e com seu trabalho em confronto com pessoas que vivem de forma mais imaginativa, digamos, e que se deixam aproveitar os momentos. Para tanto, Leon (Thomas Schubert) é estabelecido como um observador da vivência dos outros, sempre assistindo de longe, por janelas ou frestas, seus colegas curtindo os momentos, incapaz de aproveitar com eles, de participar, mergulhar em seus próprios interesses e desejos. O jovem escritor encontra problemas e irritações em tudo que acontece e em tudo que os outros fazem, enquanto permanecem de certa forma isolados em meio à natureza que pega fogo ao longe, lentamente se aproximando. Esse homem que parece insuportável tem um tratamento interessante de Petzold que o torna bastante gostável, mais do que isso, identificável. Suas inseguranças e a forma que o filme nos aproxima dele, principalmente pela comicidade atrelada às suas falhas, dão traços de uma humanidade complexa e constroem uma empatia fácil, pelos sentimentos tão comuns que tantos partilham.


São muitas características que formam esse homem, e enquanto ele observa aquele pequeno grupo, nós o observamos e vamos compreendendo sua complexidade, até que o restante da narrativa seja uma sucessão de momentos cômicos de Leon fracassando em nossa frente, entrelaçados num desfecho romântico que se apoia na literatura. Seu amigo, Felix (Langston Uibel), o salva-vidas Devid (Enno Trebs) e a apaixonante Nadja (Paula Beer), são retratados para nós pelo olhar de Leon, de quando ele os menospreza intelectualmente, observa inseguro seus corpos e sua masculinidade ou se encanta pela mulher que nunca arrisca conquistar. Enquanto o fogo se aproxima pela floresta, o escritor vê seu trabalho, o qual tanto usa como desculpa para não cruzar sua posição de observador passivo, fracassando. O mundo todo acontece na frente de seus olhos, mas ele é incapaz de perceber os detalhes, ou de colocar seus sentimentos para fora, bem como escrever algo verdadeiramente bom. A música chave da trilha sonora não poderia fazer mais sentido, “In My Mind” além de combinar com o tom melancólico ainda acompanha a personalidade de Leon, para quem provavelmente tudo só acontece dentro de sua mente.


O diretor sempre romântico então coloca a complexidade e o desconforto dessas relações humanas em um embate entre seres diferentes. Nadja, vivida pela musa atual de Petzold, carrega a mística habitual das personagens femininas de suas obras, instigante para esse homem, mas nunca capaz de o fazer assumir seu protagonismo ativo, bem como a relação amorosa que surge entre Felix e Devid pode até o balançar, mas nada é suficiente para retirar Leon de sua posição de espectador. É só quando o incêndio avança e chega mais perto que ele é tocado por aquela natureza externa, porém ainda que recrute a coragem necessária para agir de acordo com seus sentimentos, é o fogo mais uma vez que interfere. Os corpos dos amantes queimam, como se a paixão os consumisse por uma ação natural, uma tragédia poética que Leon não consegue experimentar, fadado a apenas assistir ao fogo, a sentir, mas a nunca se deixar queimar.


Mais do que um ensaio sobre o ato de observar, principalmente o de um apaixonado em crise, regido por um admirador de Hitchcock, Afire carrega o romance típico do diretor para falar de uma das maiores inspirações de todas as artes. Talvez não exista combustível maior para um artista, ou qualquer pessoa na verdade, do que um amor nunca vivido, sempre desejado sem ser concretizado, que é também o centro das melhores obras.



 

Nota da crítica:

4,5/5





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