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Agreste (2023) | Mostra SP

Sérgio Roizenblit constrói na economia de planos uma história simples de amor e tragédia cheia de potencial que despenca no mau gosto e falta de sensibilidade



A introdução de Agreste se mostra uma preciosidade ao apostar no silêncio e na fotografia para construir uma história. A troca de olhares que vem sem diálogos, nem nenhuma explicação para se apoiar, necessita apenas da imagem para se fazer entender, com o cenário naturalista do sertão da Bahia abraçando toda sua narrativa. Ainda que o silêncio diminua no restante do longa, Sérgio Roizenblit continua buscando nos olhares e ambientações o que precisa para levar sua narrativa para frente. A fotografia aqui seria belíssima, não fosse a coloração que remove um pouco da saturação e fica em um meio do caminho que não encontra objetivo certo, se busca um realismo acinzentado ou se quer ambientar a secura do agreste pela remoção da vivacidade das cores. Ocorre que essa escolha estética faz parecer que todos os dias são nublados nesse lugar seco e claramente quente, o que não condiz com o que vemos, desvalorizando um tanto essa fotografia tão bonita que sempre encontra nos planos abertos uma poesia cinematográfica, deixando seus personagens pequenos perante a imensidão da natureza que os cerca, seja no céu estrelado numa noite escura, ou durante o dia quando a paisagem árida e o horizonte mostram a dimensão desse lugar pouco habitado. É interessante como o diretor economiza nos planos, sempre buscando resolver dentro de um mesmo, sem cortes, apenas movimentando sua câmera para montar suas cenas. Essa simplicidade, inclusive da trama, leva uma história de amor quase shakespeariana para a referência clara a Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), porém nada nos prepara para o desfecho que o filme preparou, colocando um extremo mau gosto no trato de uma temática que merecia mais atenção e cuidado.


Etevaldo (Aury Porto) é um homem quieto e misterioso, sua união com Maria (Badu Morais) se dá puramente por uma conexão silenciosa, e em alguns minutos dentro da obra é que descobrimos que eles nem ao menos conhecem o nome um do outro antes de largarem tudo e fugirem de seus lugares de origem. O ar de mistério ronda Etevaldo, sempre dando a entender que existe algo em seu passado que é secreto e não será revelado, principalmente pelas poucas palavras que ele troca com qualquer um ao seu redor, inclusive com a mulher por quem se apaixonou. Já Maria é uma mulher mais aberta, cheia de imaginação, que se mostra necessitada de uma troca humana quando encontra Valda (Luci Pereira) e imediatamente começa a inventar histórias, sempre muito bem elaboradas no texto que é bem interessante. A narrativa vai então caminhar entre poucas pessoas, esse núcleo dos três vizinhos, o sobrinho policial e o colega de serviço, com mínimas aparições da filha de Valda, que são inseridas para mostrar a projeção dessa mulher do papel de maternidade em Maria. O preconceito e ignorância são pontuados na primeira aparição da filha, grávida, que mostra que Valda é uma pessoa mais dura do que parecia ser, porém essa característica não soa tão fora de tom nesse momento e pende mais para a ideia de que é algo que pode ser superado, apenas uma rusga familiar fundamentada em costumes antigos e bastante religiosos.


O problema está em como uma temática mais sensível é inserida aqui totalmente fora de tom com o restante, mas também sem tomar os devidos cuidados. Da fé o filme começa e para a fé ele caminha ao desfecho. A morte de Etevaldo no que poderia ser apenas o fim de um duelo trágico, revela seu corpo, expõe seu gênero imposto biologicamente, deixando todos ali em choque e revolta. Impressionantemente em menos de 10 minutos o filme vai de encontro às piores soluções para essa questão. Maria, a esposa de um homem trans, é julgada como uma mulher sem caráter e a primeira resposta para isso é a violência sexual, numa tentativa de estupro do sobrinho de Valda, que até então lutava pelo amor dessa mulher. Valda então, que acolhia o casal e tinha tanto carinho pela moça, se retira completamente de lidar com ela e vai para a população - que nunca havia dado as caras - gritar sobre como aquilo tudo é uma aberração, se baseando em sua fé para tal. Para o corpo de Etevaldo o tratamento é terrível, o filme não apenas o expõe como uma revelação pesada, como também o usa para colocar essas pessoas desse lugar remoto como ignorantes que jamais poderiam aceitar tal coisa e o tratam como um monstro, uma aberração. Maria ainda que demonstre carinho pelo falecido amante, é usada como vítima junto a ele, de sua situação, com seus corpos sendo violentados, queimados e amaldiçoados.


Não vejo como tais escolhas poderiam se justificar, acho uma tremenda falha estarmos tratando dessa forma uma temática como essa, usando um personagem trans como um recurso final para causar choque, sem fundamento nenhum com o todo da obra. Nenhuma fotografia bonita, nem trama simples que é competente em tantos aspectos faria esse desfecho infeliz passar batido. Uma pena, realmente, já que há muito potencial na obra.



 

Nota da crítica:

2,5/5




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