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Crítica - A Alegria é a Prova dos Nove (2023)

Helena Ignez joga no seu território habitual e tenta abraçar todas as pautas possíveis, olhando para as utopias que ligam gerações sem criar algum impacto, mas se divertindo no processo



Enquanto os personagens de Helena Ignez e Ney Matogrosso refletem sobre o passado, é a própria juventude de tantas décadas atrás que entra em questão, de que eles foram ícones em suas áreas, os ideais de uma geração que buscava tanta libertação em embate com o conservadorismo bruto. E o que aconteceu com tudo isso? Como chegamos até aqui, mais uma vez em uma geração que se vê tentando romper algumas barreiras e vendo uma grande onda conservadora se alastrar? Nessa espécie de “As Praias de Helena”, em referência a Varda, para refletir tudo que deu errado, ou tudo que está em pauta, Ignez vai no seu habitual e não faz de seu filme uma grande peça transgressora, nem chega a lugar algum, parece que ela só quer se divertir e curtir sua viagem lisérgica, brinca com tudo e mantém o clima sempre super otimista quase de quem está meio fora da realidade mesmo, exceto por um breve momento em que olha para o passado e vê em Djin Sganzerla um trauma de sua protagonista, mas é lá que ficam essas coisas mais dolorosas, no presente, Jarda Ícone tem notoriedade e está bem estabelecida em uma classe social mais alta, só quer saber de falar de orgasmos e cannabis, curtir sua vibe positiva e quem lida com as tretas de hoje são os jovens de hoje, afinal. É uma brisa realmente, não à toa Ignez já entrega um baseado nos primeiros segundos de filme para Matogrosso, um convite talvez a todos que vão embarcar nesse filme. Daí pra frente todas as discussões entram de forma bastante inofensiva, às vezes irônicas, não se levando muito a sério, sendo muito literais grande parte das vezes, sem pegar profundidade, mas garantindo alguns momentos de brilho na liberdade de fluir com a câmera pelos corpos e suas manifestações.


Daquele passado que queria a liberdade sexual, a paz e explorava as drogas recreativas até um mundo em que as mulheres ainda não gozam, tanto se debate de forma vazia as formas de se relacionar além da monogamia, a Palestina ainda não é livre e ainda é proibido o uso da maconha, dificultando até sua forma medicinal, parece que não só não ganhamos muito como também nos tornamos menos transgressores realmente. Os núcleos de A Alegria é a Prova dos Nove caminham entre um padre negro cannabista que só quer tocar violão, as amigas que vivem livremente seus amores e debatem a poligamia enquanto uma delas acaba apaixonada por um palestiono que não pode beijar nem transar antes do casamento, os protagonistas que se tornaram ricos e hoje discutem a fome no mundo e a ascenção da extrema direita enquanto seu mordomo os serve e outras muitas pequenas coisas salpicadas e largadas pelo caminho. Em alguns momentos não dá pra saber exatamente a intenção de Ignez, em outros a ironia parece clara, como nesse do mordomo, ou enquanto as mulheres gritam na praça sobre a não-monogamia e parecem um reflexo do twitter na vida real. Independente de como cada um for compreender essas colocações, Ignez realmente não está tentando fazer nada radical aqui, é bem mais leve e menos sério do que pode ser encarado.



Existem problemas de execução claros, numa bagunça também de querer abraçar o mundo e precisar falar explicitamente o que se pensa, muitas vezes sem usar a imagem, mas tem seus fôlegos. Foca numa bandeira do MST aqui, mostra os corpos e genitais abertamente, coloca camisetas, decorações, adesivos e frases de efeito para mostrar as pautas em destaque e em outros momentos vai num tom mais documental colocando diálogos fabricados até demais para dizer algo sobre a Palestina, guerra, a ocupação 9 de julho, a liberdade sexual das mulheres, as questões de uma mulher trans, tudo que é possível imaginar e faz parte dos debates do mundo atual, na esquerda, estão aqui, nem que seja uma breve alegoria, Ignez vai dar um jeito de enfiar em seu longa, e provavelmente diriam que ela deveria pegar um ou outro tema e se aprofundar ao invés de fazer essa salada mista, mas faz parte de seu estilo. Nos momentos em que Sheyla (Barbara Vida) interage com seu interesse romântico Palestino temos ótimas cenas, bem como as de Ignez na praia, ou em seu ato final mais artístico, mas isso tudo existe em contraste aos momentos mais fracos, dispersos e descartados, nessa estrutura de esquetes em que muito fica sem aproveitamento e é perdido.


Seja como for Helena Ignez, ícone do cinema brasileiro e marginal, parece que mesmo que continue tentando debater a sociedade, só busca se divertir no processo, viajar em suas ideias, brincar com seu cinema cada vez menos ambicioso e mais caseiro e familiar, mais do que realmente fazer algo com algum impacto ou força política.



 

Nota da crítica:

3/5





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