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Avatar: O Caminho da Água (2022) | Um belo e grandioso aprendizado

Mais de uma década depois, James Cameron mostra o amadurecimento e a evolução em conteúdo e técnica do mundo fascinante que criou



É bastante óbvio dizer que Avatar marcou a história recente do cinema, seja em números ou técnica, o longa de 2009 segue forte na memória do mundo todo, ainda que divida o público entre elogiar sua estética e questionar seu conteúdo. Tantos anos depois nos vemos novamente no mesmo lugar, onde o bom e velho debate sobre conteúdo e forma toma conta das discussões sobre o filme, seja entre os mais ou menos entendidos. Seja como for, é inegável que James Cameron se estabelece como um grande diretor com a sequência de sua obra-prima. Entre evoluções técnicas e um uso fascinante do 3D, Avatar: O Caminho da Água também mostra um amadurecimento de seu conteúdo, com uma história sobre confiança e respeito que entrega um olhar apaixonado do criador por seu universo fantástico.


Não é a primeira vez que Cameron prende a atenção do público por mais de 190 minutos e inunda salas de cinema com pessoas totalmente imersas em seus filmes. Titanic foi um marco nos anos 90, quando a longa duração já era algo debatido mas que importava muito menos do que hoje. Ainda que fosse preciso um vhs duplo para assistir a famosa obra, 25 anos depois ficou quase impossível prender a atenção do grande público por mais de 90 minutos, salvo pelos filmes de herói e seus fãs cativos. Por isso, é de se respeitar e muito o fato de que mesmo após 13 anos os cinemas estejam lotados e formando filas para finalmente assistir a um filme, com uma audiência motivada pela força que o nome carrega e pela autoridade do diretor.



A continuação da história de Jake Sully em Pandora não é apenas maravilhosamente bonita pelas claras evoluções no CGI, mas também por esse olhar de fascínio do autor. É possível sentir a cada momento essa paixão por Pandora e seus detalhes e criaturas. Os olhos se tornaram mais expressivos do que antes, tanto dos na'vi quanto dos animais que lá vivem. As texturas, a pele, as lágrimas e, é claro, a própria água, tudo se torna mais exuberante e sensorial. As aparições humanas diminuem e o longa mergulha de cabeça nesse universo fantástico, como se nos levasse para conhecer cada detalhe e aprender com seus personagens a existir nessa realidade. Portanto, o aprendizado é um dos motores do longa e Cameron o retrata com um carinho de quem dedicou anos aprendendo a construir esse mundo. Cada novo passo é belíssimo, das crianças que se desenvolvem, do aprender a navegar em novos territórios e conhecer novos animais, se apaixonar pela primeira vez e tentar entender como ser diferente e se encaixar. Até o aprendizado do vilão tem sua beleza, contribuindo para colocar o espectador lá dentro, olhando fascinado também para cada coisa que aprende e conhece em Pandora.


De certa forma é como se fosse um coming of age, que navega pelo crescimento de seus personagens mais jovens, já que a narrativa tira Jake Sully do protagonismo e o divide entre seus familiares e constrói uma história mais madura e forte que a do primeiro filme. Aqui, o respeito e a confiança são chaves de tudo. Há o respeito a ser conquistado dentro da hierarquia familiar e entre as tribos dos na'vi, a confiança entre eles e os animais que os cercam, o respeito pelo passado e em geral que há deles em relação à natureza - esse totalmente ausente nos humanos. Para passar essa ideia, Cameron trabalha fortemente as emoções, principalmente pelos olhos. A relação de Lo’ak com a tulkun é uma das partes mais bonitas do filme justamente por esse trabalho, são os olhos da baleia que transmitem todo sentimento. É a bela forma que o diretor retrata essa amizade entre dois rebeldes que buscam serem respeitados por quem realmente são e as lembranças dolorosas do animal que constroem algo mágico dizendo pouco, mas transbordando pela imagem. A história já tem a sua força, mas é a genialidade e o fascínio do autor que a transformam em algo potente e inesquecível.


É dificílimo passar batido por Avatar: O Caminho da Água, sem se sentir parte daquele mundo, apaixonado por seu meio, torcendo por seus personagens e emocionado com seu desenvolvimento, é como se todas as horas ainda fossem poucas para vivermos em Pandora. As cenas de ação também exaltam uma evolução técnica e fortalecem esse sentimento de imersão, com sequências que hipnotizam e nos carregam facilmente por essa longa duração. Mesmo quando o filme ameaça alongar seu conflito, não foge da briga, segura bem o ritmo sem perder nossa atenção.



Mesmo que a premissa pareça básica, uma briga do bem contra o mal, o humano que quer destruir a natureza a qualquer custo, derramando sangue dos povos originários, há muito mais no filme para se ver e sentir. Mais do que isso, a continuação de Avatar cria uma nova realidade em nosso imaginário, constrói um respeito por Pandora e suas criaturas, tudo porque nos sentimos totalmente entregues à jornada dessa família, sentimos suas dores, sofremos suas perdas, torcemos por suas conquistas e vibramos com suas alegrias. Um bom CGI ajuda e muito a criar esse deslumbramento, mas só um bom conteúdo aliado pode levar a técnica a manipular nossos sentimentos dessa forma. Existem belas histórias contadas de formas ruins, que geram pouca empatia, e existem histórias ruins bem contadas, que até causam alguma comoção, mas só uma boa combinação dos dois é capaz de criar algo grandioso.


Respeito e confiança - e alguns bilhões em lucros - trouxeram James Cameron a este lugar de autoridade, e por mim, ele pode continuar nos manipulando e contando quantas histórias mais houverem sobre seu mundo fascinante.


Nota da crítica:

4,5/5





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