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Crítica - Cafi (2021)

Deixando a própria figura comandar o filme, Cafi caminha pelos lugares que conhece e remonta um tanto da história da música e cultura brasileira em conversas com seus amigos



Um fotógrafo sempre está atrás das câmeras, registrando o mundo mas nunca aparecendo. Com algo parecido com isso que o artista Carlos Filho diz bem próximo ao final deste documentário é que se dá a ideia de Natara Ney e Lírio Ferreira, de mostrarem quem é esse homem que registrou tantas figuras importantes, criou capas de discos que todos nós já vimos, conhece intimamente e circulou entre os nomes mais famosos e marcantes da música brasileira, mas que talvez o grande público não conheça nem de nome, nem de rosto. Para tanto, a fotografia em preto e branco do longa por vezes parece uma imagem antiga, do passado, mas também serve no contraste que destaca as obras coloridas de Cafi - não são todas, mas sua maioria - que preenchem a tela entre as andanças, conversas e imagens de arquivo. A abordagem bastante livre do filme deixa Cafi no controle, como se ele estivesse fazendo seu próprio filme e a câmera operasse como uma voyeur, observando seus passos e encontros. Dessa forma, conhecendo os locais em que esse artista viveu, Recife, Rio de Janeiro e um pouco de Minas Gerais, o longa também busca sua relação com os espaços geográficos e como eles influenciaram suas obras, mas acima de tudo, são as pessoas, os artistas com quem ele fez amizade no caminho, que construíram sua carreira.


Pelas conversas com os amigos, de começo o longa pode parecer bastante confuso, por simplesmente deixar que Cafi jogue tópicos e deixe que as conversas fluam como são, filmando sem saber muito onde vai dar. São os momentos em diálogos apenas entre ele e mais uma pessoa, que podemos começar a compreender melhor os pedaços da história que vão se montando, afinal, cada um de seus encontros vem com lembranças diferentes, e assim, nem sempre o documentário tem um foco que vai seguindo uma lógica temporal, flui entre o que cada um tem a dizer numa mesa de bar, entre uma cerveja ou outra, um cigarro, e muita saudade e carinho. Sem entrevistas, o filme se apoia na força da simpatia de Cafi, andando e sendo recebido com muito gosto por todos que o conhecem, não contando histórias apenas para que sejam registradas, mas dividindo lembranças que também são deles, todas essas pessoas viveram uma parte dessa efervescência cultural brasileira e os horrores da ditadura e agora partilham memórias que são atravessadas pela presença do fotógrafo e as obras que criou ao lado deles. 


Existem diversas figuras conhecidas em seu caminho, e da mesma forma, alguns de seus trabalhos são extremamente populares, como a capa do disco do Clube da Esquina com os dois meninos. Mas, além disso, nos papos registrados nesse documentário, podemos perceber que mais do que um fotógrafo que esteve lá com tantos artistas importantes, Cafi fez parte como um coletivo desse momento cultural do Brasil, criava e participava de tudo, estava lado a lado sendo tão relevante quanto as pessoas que conhecemos o rosto e o nome há tanto tempo. Por isso, tamanha liberdade que o longa carrega, é interessante por deixar o filme praticamente no controle de Cafi, o entregar como algo dele, para que ele mesmo conte o que quiser contar, mas também fica um pouco confuso, em certos momentos e deixa uma vontade de conhecer uma coisa ou outra mais profundamente, entender melhor alguns fatos de forma ordenada.


O clima gostoso e leve que se dá, por tudo ser nesse olhar amoroso com Cafi, de encontros descontraídos, garante um documentário que escapa os moldes mais tradicionais e engessados, sendo bastante divertido, mas fica o desejo de algo ainda mais aprofundado, que dê conta das tantas histórias que essa figura parece ter vivido. De qualquer forma, já é importantíssimo para que seu rosto e nome chegue a um conhecimento maior, como merecido.



 

Nota da crítica:

3/5




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