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Companheiros, Quase uma História de Amor (1996)


Companheiros, Quase uma História de Amor (1996)

O começo de “Companheiros, Quase uma História de Amor” carrega certo romantismo e uma atmosfera de sonho. É a chegada a Hong Kong, a luz no fim do túnel (ou da escada rolante), o sonho capitalista de duas pessoas mais ligadas do que se pode imaginar.


A cidade grande engole, consome, os ambientes parecem opressivos e ninguém fala a língua de XiaoJun Li, todos são estrangeiros nessa grande cidade onde tudo acontece rápido e tudo é estranho. O primeiro ponto de conforto para o homem recém chegado é sua tia, não só por ser alguém conhecida, mas por falar seu idioma. A comunicação, que é o une as pessoas, também as separa.

No primeiro contato com Qiao Li, o sonho americano inunda as cenas. O capitalismo importado dos Estados Unidos para Hong Kong se faz presente no filme em vários momentos, com as grandes cidades, propagandas, fast food, cartões de banco, caixas eletrônicos e com a imagem do Mickey que aparece diversas vezes. Em um McDonalds, Qiao Li atende XiaoJun Li que pede um hambúrguer com coca, com as moedas contadas na mão para pagar. E se o dinheiro é o rei no capitalismo, ele também tem seu papel de destaque na relação desses dois.


Qiao Li é esperta, sabe se virar, fazer seu dinheiro, enrola quem precisa ser enrolado, transita bem em todos os ambientes e nunca para. Já XiaoJun Li é inocente, quase bobo e claramente fica deslumbrado com sua vida na cidade grande, por mais decadente que seja. Os dois se tornam o apoio um para o outro, no meio de um lugar estranho e tantos idiomas diferentes, os dois falam a mesma língua, conhecem as mesmas coisas e estão lá por objetivos parecidos, uma vida melhor. Ela para ganhar dinheiro, quanto mais melhor, e crescer na vida através disso. Ele para ganhar dinheiro e trazer sua noiva da China para que eles se casem. Com isso, os dois se aproximam cada vez mais, numa amizade que acaba se misturando com uma relação física.

Esse afeto criado entre os dois vem de um lugar de pertencimento, de segurança, de que em um mundo tão estranho para os dois eles estejam lá um ao lado do outro. E em meio a amizade, sexo, amor e a correria diária para ganhar mais e mais dinheiro, os dois vivem seus dias cada vez mais juntos, entre empregos, negócios e telas de caixas eletrônicos. Em vários momentos as outras pessoas parecem não importar, mesmo que estejam em cena, que a câmera as filme, elas não são o foco, naquele mundo, no universo particular criado por aqueles dois, só eles existem. Mas, a realidade sempre é maior que o sonho e a existência da noiva de XiaoJun Li pesa para Qiao Li e os companheiros se separam.


Entre as idas e vindas da relação dos dois e os relacionamentos vazios que eles vivem paralelamente, o sonho de uma vida melhor continua a ser a maior motivação de ambos. Ela cresce cada vez mais profissionalmente e financeiramente, enquanto ele finalmente se casa e traz sua esposa para a cidade grande. Apesar do afeto que sempre acaba os unindo novamente, eles não parecem feitos para ficarem juntos, sempre há algo que os separa. E mesmo quando ambos estão em terras ainda mais estrangeiras, morando nos Estados Unidos sem saber da presença um do outro, seus caminhos se cruzam mais uma vez.

Qiao Li se vê sozinha em Nova York, sem encontrar XiaoJun Li, engolida pela cidade grande, cercada por enormes propagandas e luminosos. No epicentro do capital ela é só mais um pequeno ponto e Peter Chan ressalta essa solidão em cena. Podemos sentir que naquele momento mesmo que ela fale o mesmo inglês que todos a seu redor, só o encontro com seu companheiro de mandarim a confortaria. Destinados sempre, desde o começo, a se encontrarem, resta saber se estariam finalmente destinados a seguirem juntos.


Nesse mundo opressivo, capitalista, apressado, que nos separa tanto, nos faz trabalhar tanto, nos faz ganhar mais para consumir mais, encontrar alguém que divide os peso dos dias com você parece mesmo algo tirado de uma música melosa de alguma cantora pop. Seja no idioma, nas vivências ou nos sonhos é sempre bom ter alguém que fala a sua língua.



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