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CPH:DOX | Invisible People (2024)

Fazendo de seu filme uma representação artística da dança que busca investigar, Alisa Berger atravessa sua própria vida com a arte


Invisible People Alisa Berger

Pouco mais de uma hora atrás eu não sabia o que era Butoh, foi a viagem proposta por Alisa Berger que me apresentou a esse mundo. Assistindo a tantos documentários em meio à cobertura de um festival, muitas vezes me deparo com filmes que compreendem tanto um contexto que parecem esquecer que o espectador nem sempre está familiarizado com o mesmo, são muitas intenções de adentrar um universo sem ao menos tentar o introduzir. Ver filmes é conhecer o mundo do outro e poder assistir trabalhos de diferentes lugares, que fogem de uma lógica comercial, é sempre enriquecedor, são muitos pontos de vista, muitas culturas. O que Invisible People faz é muito rico porque não apenas apresenta seu objeto, como o faz parte de sua própria forma. Parece muito difícil explicar o que é a dança Butoh e Alisa não pretende ser totalmente didática aqui, é preciso se deixar levar por suas imagens para aos poucos compreender essa forma de arte, ainda que não completamente. Inicialmente, a cineasta apresenta sua história como um conto distante e se remove de seu filme quando é hora, a autora aqui tem um fascínio por essa dança e por toda cultura ao seu redor mas parece entender seu lugar e, assim, coleta relatos, pessoas e suas relações com o butoh para tentar explicar visualmente e sensorialmente o que ele é. 


Seu documentário flui como essa própria arte, deixando as imagens falarem, por vezes em longos minutos apenas com a trilha sonora, em outros momentos as sobrepondo com vozes que aparecem cada hora em um idioma diferente. A ideia da dança, de que o corpo deixa de ser humano quando se manifesta, algo quase abstrato, é refletida em como ela monta suas cenas, é pelo butoh que se observa a vida e por sua visão se cria o filme. Ainda que sua voz seja presente, é como se Alisa se retirasse para deixar essa manifestação artística protagonizar, retornando em seu desfecho para atravessar seu documentário com sua própria vida, que acontece sem ensaios enquanto a diretora faz seu trabalho. Existe muito em Invisible People que não é fácil de assimilar, as mudanças de línguas - em alguns momentos faladas rápidas demais para acompanhar - e a complexidade dessa dança costurada em tantas pessoas. Tentar entender pode ser o maior problema, já que o butoh não é algo programado, mas orgânico, e mais filosófico do que artístico, assistir a esse pequeno longa que o retrata de forma tão fascinante precisa de uma mesma entrega, relacionado com uma frase bastante repetida ao fim, é necessário ir com calma e sempre que estiver no automático, parar e sentir novamente. 


A grande força dessa representação está em como Alisa enxerga cada uma dessas pessoas, essa dança e seu filme, não é que a diretora seja parte originalmente disso tudo, nem por nascimento, é seu interesse, um fascínio, que a leva a crer que compreender o butoh pode a levar a compreender muitas outras questões. Sua viagem ao Japão a leva a encontros, de pessoas que se descrevem ou são descritas por ela, que encontraram na dança diversas respostas e não parecem estranhas simplesmente entrevistadas, mas um núcleo próximo da cineasta. É notável como Alisa admira a cultura japonesa e como não a mostra como uma estrangeira curiosa, há uma relação muito mais profunda aqui. O que ocorre no meio de sua viagem ao Japão é relatado na introdução, mas interrompido, como provavelmente foi seu processo de criação. 


Sua história pessoal para e a do butoh e de seus convidados começa, abre-se espaço como se a criadora compreendesse seu momento de se retirar. Mas, inevitavelmente, sua vida retorna e o documentário se torna bastante particular, no entanto ainda é totalmente atravessado pela cultura do butoh. As muitas histórias se revelam praticamente indissociáveis, pelo que Alisa aprendeu no Japão, pelos muitos encontros que teve, por tudo que a dança lhe ensinou. Invisible People é totalmente sobre o butoh, e todo luto de sua diretora, as questões pessoais de cada um, maiores - como a do colega que encontra na dança novas motivações para viver - ou menores, são inseridos no filme com o mesmo ar artístico e filosófico que essa arte carrega. 



 

Nota da crítica:

3,5/5


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