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CPH:DOX | As Noites Ainda Cheiram a Pólvora (2024)

Com forte influência do cinema português, Inadelso Cossa tenta capturar os fantasmas da Guerra Civil Moçambicana em filme que não encaixa bem suas peças


As Noites Ainda Cheiram a Pólvora

O microfone direcional é uma das grandes estrelas de As Noites Ainda Cheiram a Pólvora, sempre presente visualmente e muitas vezes criando toda a atmosfera das cenas por meio dos sons, os silêncios, o vento batendo nas plantas, os pequenos animais fazendo barulhos, cada pequeno elemento se soma para criar um fundo bastante natural neste documentário. Mas, o que parece que Inadelso Cossa quer realmente captar são os fantasmas que ficaram no vilarejo de sua avó, deixando seu operador de som muitas vezes sozinho em grandes espaços vazios, ou se posicionando ao seu lado para conversar e esperar que o microfone faça sua mágica. Esse lugar cercado de natureza aparenta ser praticamente vazio nos muitos planos contemplativos que o filme faz, observando calmamente cada aspecto dos espaços como se aguardasse algo, posicionando as fotos daqueles que já existiram ali pelo chão, quase tentando invocar seus espíritos para falar sobre suas memórias. Na ausência deles, entrevista sua avó e outros poucos habitantes, mas é sempre como se aquelas pessoas se importassem muito menos com o que o diretor quer saber do que ele dá importância em sua obra. As fortes influências de Pedro Costa são gritantes, Cossa evidencia desde os primeiros minutos que é um apaixonado por cinema e que pretende usar essa arte para dar luz aos acontecimentos ali perdidos, diluídos nas memórias do vilarejo. É muito possível usar referências e ainda criar algo próprio, mas o que As Noites Ainda Cheiram a Pólvora faz, falha justamente por não saber como as encaixar, não servem a um propósito além de serem um par visual de outra obra, não encontram sentido. Cada plano de sua avó aparenta ser tirado diretamente de Vitalina Varela, mas falta a Cossa a mesma habilidade de unir sua estética, ritmo e texto em algo que se complete e converse.


As Noites Ainda Cheiram a Pólvora

A velha senhora parece não apenas pouco se lembrar, mas também não enxergar tanta importância em seus relatos sobre o passado. Na verdade, todos ali no vilarejo, que são poucos, estão muito mais preocupados em viverem suas vidas do que em conversar com a câmera sobre a guerra civil, embora colaborem de bom grado. O entrevistador não consegue ultrapassar algumas barreiras para que essas trocas sejam ricas e tragam de fato algo para o longa, sua intenção e vontade é muito maior do que sua história tem potência para preencher no filme. Assim, sobram planos poéticos em que o diretor fala sobre cicatrizes de guerra, mas faltam manifestações disso nas pessoas que as carregam. Os acontecimentos passados existiram, marcaram, não são negados, só que nenhuma conversa filmada consegue tirar o que Cossa tanto diz, em um desencontro narrativo. As muitas cenas que soam como um exercício de ouvir o silêncio, na espera dos fantasmas de toda violência passada, são bonitas e a atmosfera sonora é realmente potente em diversos momentos, porém nada se encaixa, visto que a intenção e o discurso não caminham na mesma direção do que realmente se possui. Mesmo os debates entre rebeldes, vítimas e algozes, todos ali parecem tão distantes daquelas questões, não apenas em memória, mas emocionalmente também, quem em algumas cenas Cossa talvez seja o único que não superou o que ele nem mesmo viveu.


Seu esforço de contar a história dessa Guerra, tentando remontar as memórias dos poucos sobreviventes, é bastante nobre e interessante, mas não caminha com uma boa estratégia enquanto documentarista. Fazer um filme em Moçambique, pelos olhos e vozes dessas pessoas não é só importante historicamente como também para o cinema, que esse diretor claramente ama e quer deixar sua própria contribuição, mas falta sensibilidade com seus entrevistados, na forma de encontrar suas respostas e vasculhar entre suas referências e objetivos sua verdadeira voz. Sua insistência em seguir seu intuito inicial acaba enfraquecendo demais o produto final, não encontrando uma autoria própria, quase copiando planos e buscando algo sombrio que não é possível ser encontrado nem forçando. Sabemos tanto dessa guerra no início do filme quanto saberemos ao seu final, o registro histórico também se perde nesse meio. Entre ideia e o que realmente existe, fica uma obra cheia de retalhos incoerentes que ainda soa bonita em algumas cenas, mas um tanto vazia.



 

Nota da crítica:

2,5/5


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