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CPH:DOX | Once Upon a Time in a Forest (2024)

Em total comunhão com a natureza da Finlândia, Virpi Suutari observa a ânsia do jovem grupo ativista, com toda gentileza que atravessa seus atos


Once Upon a Time in a Forest

Cobrindo um festival internacional me deparo com filmes de muitos lugares que nem sempre estão no radar no dia a dia, e certamente os Finlandeses são os que causam maior impacto nas diferenças culturais. Em Once Upon a Time in a Forest, a diretora Virpi Suutari opera como uma observadora silenciosa que mantém certa distância do grupo de ativistas que registra, deixando que eles conversem, protestem, se relacionem e vivam livremente enquanto suas lentes capturam suas maneiras de existir. Percebe-se logo que o grupo possui uma maneira própria de se comunicar, por exemplo, que aos poucos compreendemos intuitivamente, e embora Ida e Minka sejam as personagens indicadas com mais destaque, todo o pequeno grupo é retratado no filme como uma unidade importante justamente pelo coletivo. Filmar essas jovens é como um exercício de compreender as inquietudes e frustrações típicas dessa fase da vida, ao ver seu futuro em risco por atitudes grandes de um sistema destrutivo, e é no grupo ativista que elas encontram possibilidades de agir, por estarem juntos. As belezas naturais em total comunhão com essas pessoas são contempladas com um trabalho de fotografia fascinante, enquanto Suutari parece buscar não apenas a movimentação política dos jovens, mas também a própria vida, suas emoções, como se divertem e como encontram nessas paisagens naturais mais do que algo para defender. 


Talvez o maior impacto cultural em tudo isso seja a tranquilidade e a gentileza encontrada em cada cena. A forma de filmar muitas vezes em um simples plano e contraplano nos diálogos aguarda a vez de cada um terminar sua fala, que é exatamente como todos se comunicam aqui, mesmo com pessoas de fora do grupo. Algo impensável numa dinâmica desse tipo no Brasil, que envolveria muito mais calor, assim como mais violência nos encontros com a polícia. Quando protestam e são removidos por autoridades, tudo é sempre comunicado com bastante clareza, todos tem seu momento de falar e agir, como se tudo operasse em uma lógica organizada e controlada, até bem limpa, mesmo para as ações de protesto nada parece sair de controle, mas essas são impressões que batem diretamente com uma experiência de país muito diferente da mostrada. Mesmo nesse lugar que transmite bastante calmaria, é clara a agitação interna típica da juventude, essa fase da vida em que muitos sentem quase um chamado para tentar mudar o mundo, é o que acontece com Ida e Minka e que as faz dia após dia serem detidas em suas ações e seguirem buscando novas formas de lutar pela preservação das florestas que tanto amam.


A energia do filme se alinha com elas e com a própria natureza, e são os planos belíssimos que mostram cada paisagem e os corpos se unindo aos elementos naturais, ou o grupo catalogando cada pequena espécie encontrada, que tornam as cenas de desmatamento momentos violentos, em que árvores são filmadas sendo arrancadas, com seus galhos sendo removidos por máquinas, de uma maneira que se assemelha a uma tortura. É doloroso de assistir não apenas pela atmosfera que a diretora consegue criar e pela forma como coloca suas imagens, mas por conta de todo esse paralelo criado. O encantamento por essas florestas passa para o espectador, é quase impossível não admirar os lugares filmados e imaginar a tristeza que seria os perder. É assim que misturando uma abordagem tão doce que parece um conto mágico de fantasia, com uma ânsia jovem por mudança em mundo real e capitalista, Once Upon a Time in a Forest capta uma essência muito própria de seu lugar e a transmite com tanta clareza quanto seus personagens são capazes de se comunicar e se organizar.


Filme assistido a convite da Noise Film & TV


 

Nota da crítica:

3,5/5


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