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Crítica - Jardim dos Desejos (2022)

Explorando todo imaginário de sua analogia, Paul Schrader faz filme desafiador sobre o ódio e a violência entre as pessoas, desde a raiz até a redenção


Jardim dos Desejos (Master Gardener)

É fácil listar as características comuns ao trabalho de Schrader que também ressoam em Jardim dos Desejos (Master Gardener), principalmente ao pensar nos homens solitários e complexos que protagonizam essa trilogia completada por Fé Corrompida e O Contador de Cartas, porém, este que a fecha é provavelmente o que mais desafia o espectador pelo caráter de seu personagem e como a trama se desenrola a partir de suas questões pessoais. A violência escondida dentro dos homens, e a culpa, foram motores de seus filmes anteriores, mas ao colocar Joel Edgerton na escuridão, sem camisa, encarando no espelho todas as marcas de seu passado nazista, o diretor e roteirista não apenas estabelece rapidamente o conflito moral que será enfrentado com sua obra, mas principalmente dentro dela. Narvel carrega na pele as sementes do ódio que foram plantadas nele mesmo há muito tempo, as tatuagens servem como um lembrete constante de quem fora, de suas atitudes e do que perdeu com isso. Ronda na atmosfera ao longo do filme um questionamento acerca desse jardineiro, se ele mudou, se seu vínculo com a ideologia pode ser rompido ou só está adormecido, escondido pelas mangas longas e a postura asseada, se seu tratamento com os colegas negros é apenas uma atuação. Ao mesmo tempo, a casa grande comandada por Norma (Sigourney Weaver) é outro lembrete histórico da violência humana, uma herança de sangue e fortuna, essa que não se oculta nas aparências, mas se impõe por meio delas. A relação sexual burocrática entre Norma e Narvel se dá pela dominação da mulher e uma simpatia com o que as imagens estampadas no jardineiro representam, se para ele os símbolos são lembretes de culpa, para ela são atrativos sensuais. Enquanto ela fala com desdém da mistura que dá origem a sua sobrinha-neta, Narvel se esconde nessa postura indecifrável, desafiando o espectador a desvendar o que pode brotar dessa casca moldada pelo ódio.


Jardim dos Desejos se apega bastante ao passado, como se olhar para trás fosse inevitável para compreender o que sobrou e formou o presente. A casa colonial, o velho dinheiro, mas principalmente, o nazismo na história de Narvel que vem justamente pelo recurso dos flashbacks. Assim como as tatuagens, são as imagens que contam em etapas como o homem violento treinado para “remover as ervas daninhas” se tornou o bem limpo, rígido e fechado cultivador de belas plantas e flores. A chegada de Maya (Quintessa Swindell) aumenta a complexidade quando observamos a relação entre a jovem e o jardineiro - na mesma dinâmica de aprendiz e mestre, típica de Schrader -, levantando a questão: é possível ser um ex-nazista? O romance entre ambos se ergue nesse debate moral que inicia-se do lado de fora da tela, já que a revelação do passado de Narvel só se dá para Maya após um vínculo ser bem estabelecido entre eles. Enquanto a dúvida paira em quem assiste, para a personagem talvez seja até mais simples passar por cima disso, em uma resolução bastante bonita do diretor, quando o jardineiro precisa se despir completamente, se mostrar vulnerável na pele e no posicionamento, de joelhos perante a mulher. É o oposto da relação de poder entre ele e Norma, na qual ela comanda a remoção das vestes para observar seus símbolos de horror como um fetiche de dominação e sadismo. 


Essa jornada do anti-herói nunca é simples, sempre vai numa moralidade complicada, além da tensão óbvia colocada entre um nazista e uma mulher negra, Maya é mais jovem e acaba sendo tratada de forma paternal para “limpar” as drogas do seu corpo, posteriormente se tornando parceira romântica e sexual do homem. Mas, como nos outros filmes da trilogia, há um momento em que a composição visual excede qualquer confronto, o encontro entre ambos, com Narvel devidamente redimido pela mulher, se torna uma viagem psicodélica pelo que floresce a partir dessa união. Jardim dos Desejos é categórico ao pontuar que as sementes do ódio existem e seguem sendo plantadas, assim como a terra sofre os efeitos das toxinas do passado até hoje, mas que também é possível renovar esse solo, e que plantas se recuperam mais do que parece. Mora aqui outra complexidade a respeito desse criador para abordar certos pontos, mas certamente o diretor tem seus muitos comentários pertinentes sobre a política e a história da América. É o lado romântico do jardineiro que relaciona diretamente sua ocupação com a realidade do mundo, independente do desafio moral de acompanhar sua evolução, Schrader entrega a ele a redenção de alguém que foi cultivado para o mal, mas soube se reconstruir, principalmente por meio do amor. 


 

Nota da crítica:

3,5/5


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