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Crítica - O Menino e a Garça (2023)

Em uma jornada de compreensão da finitude das coisas, Hayao Miyazaki se atém a seus tradicionais mundos fantásticos para encerrar ciclos e abraçar seus recomeços


O Menino e a Garça Crítica

Depois de anunciar sua aposentadoria, Hayao Miyazaki voltou com um cartaz ilustrando uma garça azul. Por muito tempo isso foi tudo que soubemos de seu novo filme, que aos poucos ganhou o mundo, novas imagens e títulos, e finalmente chega ao Brasil no início de 2024. Nos últimos anos alguns cineastas estão demonstrando em suas obras como o peso do tempo está cada vez mais presente, o cinema mudou em decorrência das mudanças do mundo e os grandes nomes envelheceram. Miyazaki coloca esse mesmo peso em seu último filme, em tom de despedida, mas também abrindo caminho para que outros universos fantásticos continuem a ser construídos. É por isso que O Menino e a Garça não é diferente de tudo que o cineasta já fez, se aproxima nas lógicas e elementos, nada de novo é feito aqui, mas é justamente esse elo com sua jornada artística que fortalece a mensagem do longa. Mahito é mais uma das crianças aventureiras das animações de Miyazaki, enfrentando o luto durante a guerra, abrindo portais para um novo universo e como de costume, tudo se divide entre o fascínio e o grotesco, a doçura e o aterrorizante, em uma fuga da realidade que caminha para a aceitação. Existe muita alma nos filmes do diretor japonês, talvez por partilhar coisas próprias ou por simplesmente saber traduzir a mágica em seus mundos. Os universos construídos por Miyazaki respiram, tem vida, estabelecem lógicas próprias facilmente compradas por todos recém apresentados a elas, tudo é possível a partir de seus traços e agora, ele parece dizer que é preciso continuar imaginando todas essas possibilidades, mesmo que não seja ele o arquiteto.


A jornada de Mahito compreende a todo tempo a morte da mãe, não é uma fuga que busca uma reviravolta no que aconteceu, o pequeno menino entende e aceita seu luto, mas, nos filmes de Miyazaki, escapar para realidades alternativas sempre foi uma forma bastante humana de amadurecer algumas coisas. Essa viagem se torna um processo de aceitar a nova relação com a tia, mas mais do que tudo, de conhecer o velho senhor que criou tudo aquilo, que levanta com seus blocos mágicos as estruturas surreais daquele mundo alternativo. Tudo leva ao encontro da nova geração com a mais antiga, de uma sucessão necessária para que a imaginação siga viva e não reste apenas o mundo real, cheio de dores, guerras e maldade, para se existir. Portanto, O Menino e a Garça aceita e compreende a finitude de tudo, da vida da mãe de Mahito, das fases que vivemos e até das fantasias existentes. Não é preciso salvar a torre em ruínas, mas sim a deixar cair e aceitar que cada um existe em seu tempo, que algumas relações ficam para trás e outras novas precisam surgir. O velho cansado sente que não pode continuar seu trabalho, mas é preciso que os mais jovens carreguem um pouco da magia para frente. Tudo nesse novo, e talvez último, trabalho do diretor, é sobre ciclos se encerrarem e novos começarem, aceitando a realidade das coisas sem nunca esquecer que a imaginação existe para nos ajudar principalmente nos momentos mais difíceis. 


Mahito não cogita em momento algum largar o lado de lá da porta, mesmo quando seu familiar mais antigo discursa sobre todas as mazelas que lá existem, mas é inevitável que ele carregue consigo um pedaço mágico em seu retorno, para nunca esquecer que outros mundos são possíveis. No processo de conciliação com a nova mãe e a nova família, Miyazaki não faz nada de novo ou diferente de seu habitual, mas é inegável a força para elaborar suas concepções criativas, a imersão em seus universos e criaturas, a facilidade de comprar suas ideias e regras, como sempre, seus filmes são os portais que se abrem para que o espectador possa fugir por alguns momentos da dura realidade do mundo. É assim que O Menino e a Garça se parece bastante com uma despedida que amarra suas obras e estabelece um senhor preocupado com as estruturas da fantasia, com a continuidade de seu legado, usando Mahito como uma esperança de encontrar meios para construir um mundo melhor e de continuar a imaginar, nessa atualidade cada vez mais distante da criatividade, alternativas mágicas para escapar e lidar com as dores da vida. 


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Comunicação e Sato Company

O Menino e a Garça chega aos cinemas brasileiros em 22 de Fevereiro de 2024



 

Nota da crítica:

4/5


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