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Dinheiro Fácil (2023) | Mostra SP

Com filme quadrado e pouco criativo, Craig Gillespie faz sátira que se restringe a relatar os acontecimentos reais atrelados, propondo uma mensagem duvidosa de revolução



É engraçado que o mesmo diretor que fez Eu, Tonya (2017) e A Garota Ideal (2007) chegue agora com uma proposta tão sem inspiração como Dinheiro Fácil. O filme, que se baseia em fatos reais de um acontecimento que balançou o mercado de ações há pouco tempo, realmente foca seus esforços em contar essa história, sem se importar em criar uma narrativa criativa que leve a ideia para frente. É comum, é claro, filmes que se comportem dessa forma, mais preocupados em criar caracterizações de seus personagens o mais próximas das pessoas reais possível e em contar os fatos ocorridos, como se a obra fosse um mero apanhado de informações que se uniu para passar essa mensagem e ao invés de ler alguns artigos ou assistir a um vídeo no youtube explicando o que ocorreu no mercado financeiro quando um grupo de pessoas no reddit apostou tudo nas ações de uma rede de lojas de videogames, uma pessoa possa simplesmente assistir a esse filme e entender tudo, em menos de duas horas. Gillespie até cria momentos divertidos, falamos de uma sátira, afinal, com um elenco de carinhas conhecidas e o fato de que quase todo mundo gosta de rir de alguns bilionários se dando mal. Mas, além do sempre excelente Paul Dano, uma parte do elenco que possivelmente segura qualquer presepada e uma quantidade absurda de gatinhos, o diretor tem seu mérito no humor que encontra um tom de levada fácil, sem forçar tiradinhas e piadinhas horríveis a cada minuto, como esse tipo de filme costuma fazer. Mas, ainda assim, é tudo fraco demais e sem criatividade e o que é realmente forçado aqui é a mensagem de uma suposta revolução de um “povo” contra os poderosos de Wall Street.


Para ilustrar esse mundo digital em que a história está inserida, o longa encontra soluções medíocres, um amontoado de telas jogadas, montagem acelerada, dancinhas de tiktok aleatoriamente inseridas, trilha sonora pop e a constante dos dispositivos a cada movimento da trama. Dinheiro Fácil ainda não é dos mais apressados, visto a velocidade que algumas obras estão aplicando, mas tem essa essência contemporânea do desespero digital, o que realmente complica seu passo é a quantidade de personagens que não funciona bem e até o torna cansativo e desinteressante em vários momentos. Numa tentativa de mostrar um cenário macro desses acontecimentos, como quem não quis individualizar uma história que é coletiva, o longa se apoia em diferentes núcleos de investidores com várias motivações, além dos bilionários, do que seria o protagonista e sua família. Pete Davidson parece ter sido escalado apenas para fazer o que sempre faz, receber um cheque para aparecer em tela fumando maconha (bom pra ele), bem como Anthony Ramos que seria um ponto interessante, por ser um trabalhador da própria loja que é centro de tudo que ocorre, não tem nada de muito relevante a acrescentar além de uma dancinha. São pessoas soltas que juntas deveriam levar essa narrativa e passar uma ideia de um grupo digitalmente unido, porém fisicamente separado, por questões geográficas e de pandemia, mas que só acabam pouco aproveitadas e nos fazendo questionar se realmente eram necessárias aqui.


Enquanto caminha para encerrar, Dinheiro Fácil vai se apegando mais e mais a uma ideia de que seus acontecimentos incitam uma revolução popular no mercado financeiro e que Keith Gill seria uma espécie de herói dessas pequenas pessoas, com pequenos dinheiros, tidas como o “dumb money” (título original que também é uma expressão desse meio) pelos “smart money” - os poderosos que controlam a grana das ações, o conhecimento e as informações e que, nesse caso específico, teriam sido passados para trás por um grupo organizado e bem liderado. Isso é bem marcado principalmente por como Gillespie aumenta seu tom dramático ao longo do desenrolar dos tribunais virtuais e engrandece a figura de seu protagonista, o colocando cada vez menos como humano e mais como uma referência, uma lenda digital. Com uma trilha pontuada pelo rap, closes em admiradores que veneram seu líder e homens ricos sendo diminuídos, se fortalece uma narrativa de empoderamento desse recorte do povo que se torna ainda mais escancarada como proposta do filme quando a tela se torna um amontoado de textos, relatando o restante dos acontecimentos, e finalizando com uma mensagem de revolução.


Essa suposta revolução pode ser lida como uma ingenuidade, mas mais possivelmente como uma desonestidade do filme. O que realmente parece provar é que os estadunidenses não têm muita noção de nada que envolva uma verdadeira revolta popular e é fácil vender para eles esse conformismo com o capitalismo, que para esse povo retratado é mais um aliado do que um inimigo, assim como para os vilões que são aqui colocados comicamente para vender uma ideia de vitória que certamente não existe de verdade, pelo menos não por esses meios.


Filme assistido a convite da Sony Pictures durante a coletiva de imprensa da 47ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo


Dinheiro Fácil chega aos cinemas em 2 de Novembro



 

Nota da crítica:

2,5/5



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