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É Tudo Verdade | Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (2024)

Do íntimo ao cenário externo compartilhado, Bel e Sandro fazem um filme repleto de esperança, para dialogar com o futuro


Fernanda Young - Foge-me ao Controle

É como se o primeiro momento filmado fosse o nascimento do documentário, assim, parecendo que cada pedaço gravado não foi nem ao menos montado, saiu direto da vida real para as câmeras e em seguida para nossas telas. A espontaneidade com que Bel Bechara e Sandro Serpa abrem suas vidas, sua casa e emoções para esse projeto se dá por uma motivação bastante bonita, não é diretamente com o espectador que eles falam, mas com o Gael do futuro, o filho que poderá ver e compreender como foi que chegou àquela família. Poucos têm esse privilégio, quando eu nasci, por exemplo, meus pais só tinham um filme de 12 poses e um sonho, registrar uma foto por mês de gravidez e deixar o restante para a maternidade, só quando eu cheguei ao mundo foi que meu pai notou que o filme tinha queimado dentro da câmera e assim, tudo se perdeu. Abro esse espaço bastante pessoal, se me permitem, porque Gael nasce em 2021 e a mesma tela que apresenta a ele o cinema de Ozu é a que capta muitas cenas de Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, graças a esses dispositivos e ao mundo digital, muitos aprenderam a se comunicar e dialogar questões importantes de suas vidas pelo vídeo. E no mesmo processo que uma gestante usa seu tempo antes do nascimento para preparar tudo, Bel e Sandro montam seu ninho e se preparam psicologicamente nesse processo mais complexo, utilizando o cinema para eternizar cada etapa, de um cenário terrível compartilhado com todos os brasileiros, até o universo tão particular dessa família se completando.


É engraçado ver o primeiro encontro de Gael com os pais, ainda que a qualidade das filmagens seja extremamente precária em relação ao restante, é possível notar um entrosamento quase instantâneo entre eles. O bebê parece ter a mesma energia de Bel e Sandro, aquela que vemos preencher a tela desde o primeiro segundo, uma tranquilidade afetuosa, algo que se confirma ao longo do filme enquanto vemos o menino na casa como se nunca tivesse estado em outro lugar. Mas é esse registro do primeiro contato presencial que confirma ao espectador um elemento importante do longa, toda dor, todos os obstáculos a serem ultrapassados, qualquer ideia de uma jornada de superação, está descartada, este é um filme sobre esperança, aquela que uma nova vida tem o poder de trazer a um país já muito cansado e desgastado. Existe, é claro, toda uma história entre Bel e Sandro para chegarem até ali, a opção pela adoção, o caminho para ter um filho, frustrações, perdas e cicatrizes emocionais, mas só ouvimos isso brevemente em um papo do casal, o foco do documentário não é esse, ele se inicia já com a notícia da possibilidade de Gael em suas vidas e é daí pra frente que seguimos uma narrativa de confirmações e alegrias, um santo remédio para o pesadelo que vivemos.


Ao dividir a direção, como sempre fazem em suas parcerias de trabalho, o casal transforma essa observação tão íntima em algo muito honesto sobre as coisas mais simples da rotina, as reações a cada processo, a arrumação dos quartos, a insegurança de ser pai e mãe de primeira viagem, tudo sem medo de se abrir porque, mais uma vez, falam com alguém que amam e faz parte de sua família. Fica claro a sorte de Gael, que um dia ele poderá compreender assistindo ao filme, de ter um lar tão alegre, pessoas tão amáveis e dispostas a fazerem tudo dar certo em tempos tão duros. Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida é uma ode a seguir vivendo e construindo futuros, a continuar fazendo cinema, música, e todo tipo de arte, para se comunicar com o que vem pela frente. Se Ozu morreu nos anos 60 no Japão e ainda pode nos ensinar tanto sobre a sétima arte e sobre viver até aqui no Brasil, Bel e Sandro tentam deixar seu próprio impacto nessa história, seja para o Gael mais velho, seus filhos e filhas que podem carregar o sobrenome da avó, ou para todo um público que terá a sorte de conhecer essa família.



 

Nota da crítica:

4/5


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