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Marte Um — A (falta de) esperança que une nossas histórias


Marte Um Crítica

Nos últimos anos o Brasil vem passando por um sentimento coletivo de desesperança. Quando o atual governo venceu a eleição, havia medo do que viria pela frente, falta de esperança em um futuro melhor, receio do que poderia acontecer com nossa cultura, com as pessoas - que hoje já é um medo real - um desânimo coletivo de não saber como vamos continuar sobrevivendo nas condições atuais. Mas é lá nesse começo ainda muito incerto que a história de Marte Um abre e nos apresenta uma família negra de Contagem que leva bem sua vida, com uma filha mais velha na faculdade federal, o mais novo na escola e no futebol e os pais empregados, podendo celebrar com um bom churrasco no final de semana. O retrato dessa família é o mesmo de tantas outras de classe média baixa em nosso país, que hoje, infelizmente, perderam muito do que conquistaram.


Não é a primeira vez que o cinema feito em Contagem diz muito sobre as dificuldades e sonhos do povo brasileiro, A Vizinhança do Tigre (2016), Arábia (2017) e Temporada (2020) são só alguns exemplos que trazem, cada um da sua forma, as paisagens das periferias, a realidade e o cotidiano dos trabalhadores que estão em Minas Gerais mas poderiam ser de qualquer estado do Brasil. Em Marte Um, Gabriel Martins usa esse olhar para mostrar os pequenos universos de cada um dos membros dessa família em um filme onde todos eles são protagonistas.

Enquanto o longa começa pontuando verbalmente os receios que rondam o novo governo vemos cada pessoa dessa família passando por suas próprias questões e, aos poucos, os efeitos reais das mudanças no país afetando suas vidas. A todo momento, a classe social se mostra uma barreira para os sonhos, uma barreira que só cresce conforme as dificuldades aumentam. Para a filha (Camila Damião), com uma namorada de família em melhor condição financeira, sair da casa dos pais se mostra uma preocupação com os custos. Para o filho mais novo (Cícero Lucas), o sonho de ser jogador de futebol se mostra não apenas um sonho somente do pai, mas também uma possibilidade de um futuro melhor para toda a família, enquanto seu verdadeiro desejo de se tornar astrofísico é algo praticamente impossível pelos desafios financeiros que esse caminho carregaria. A mãe (Rejane Faria), uma trabalhadora doméstica, vive o desafio de trabalhar informalmente em casas de alto padrão ao mesmo tempo em que em sua própria casa o dinheiro começa a faltar, já que a demanda por seus serviços vai caindo ao longo do tempo. O pai (Carlos Francisco) trabalha em um prédio para pessoas ricas que usam e abusam de seu serviço por anos sem aumentar seu pagamento e o descartam sem pensar duas vezes quando algo dá errado.


Em muitos momentos o longa parece ser literal e expositivo no que tem a dizer, mas em outros carrega alguma sutileza nas alegorias. A angústia crescente das dificuldades parece refletir principalmente na personagem da mãe, que ao passar por um momento traumático começa a se sentir ansiosa em diversos momentos, mas sem conseguir explicar como se sente, sem ter espaço para trabalhar essas dores. Assim, ela leva tudo como uma maldição, algo espiritual que estaria a afetando e que a faz temer prejudicar sua família. O país está ruindo, a economia está um caos e a base familiar que todos conhecemos bem, a mãe, é quem mais sofre e mais aguenta ao mesmo tempo.

O filme funciona muito bem em criar uma relação de empatia com aqueles personagens, valendo-se também de elementos que aproximam daquilo que nos é familiar, a paixão pelo futebol, os clichês maternos e os costumes diários. Por isso, a carga emocional é crescente ao mesmo tempo que a trama se torna mais trágica e desesperançosa. Seria fácil torcer por essa família se tudo ali fosse apenas ficção e fantasia, mas o mais triste é que vemos ali um tanto da realidade que também nos assola, tirando um pouco da fé em um final feliz.


Ao final de Marte Um, lembrei muito dos meus pais, e talvez tenha sido essa a mensagem que o diretor tentou deixar. Nos momentos mais duros que passamos, ainda temos os nossos e não temos muita escolha a não ser juntar forças e encarar as dificuldades. Mesmo com tudo desmoronando ao redor dessa família, eles tem que seguir em frente, Deivinho ainda tem um sonho, eles ainda tem um ao outro e mesmo que pareça difícil, eles ainda acreditam em um futuro melhor. Às vezes é só acreditando que conseguimos seguir, afinal, ainda estamos vivos.

Nos resta torcer para vivermos, em breve, em um país onde Deivinho possa sonhar ser o que quiser e ainda consiga realizar.


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