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No Cemitério do Cinema (2023) | Mostra de Cinemas Africanos

Thierno Souleymane Diallo documenta a importância histórica de preservar o cinema em sua busca por uma película perdida, criando uma eulogia política para a sétima arte



A era dos streamings e as múltiplas possibilidades de consumir cinema fora da sala escura coletivamente causaram uma leva de reflexões no que podemos considerar uma das muitas mortes dessa arte ainda tão jovem. É como já falei em meu texto sobre Retratos Fantasmas (Kleber Mendonça Filho, 2023) que conversa muito com Adeus, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003), e essa relação aparece mais uma vez, agora na Guiné. Mas, se Kleber fez um retrato extremamente pessoal e Tsai Ming-Liang um quase espiritual da relação com o cinema, Thierno Souleymane Diallo faz um filme que vai muito mais para o lado político dessa história. A busca que move o longa, por uma película perdida de 1953, do que seria o primeiro filme feito por um diretor negro de língua francesa, serve para costurar a interação de Diallo com pessoas próximas, do lugar de onde veio, até o continente colonizador, em provocações sobre o que a sétima arte representa para cada um, para o mundo e seu papel histórico. O diretor não faz apenas uma obra que pensa o cinema, mas que também o utiliza para criar os filmes perdidos ou nunca feitos e incitar uma nova relação dessa arte com as pessoas, principalmente mais jovens, de seu país. O aparato cinematográfico sempre presente, com Diallo a todo tempo frente às câmeras, mas também operando a sua própria, faz questão de lembrar que assistimos a um filme, feito por pessoas, mas nunca diluindo a barreira que existe na mágica dessa arte, pelo contrário, o diretor sempre que possível mostra como os equipamentos e a intenção do olhar de quem filma podem transformar até uma brincadeira com armas improvisadas em uma narrativa cinematográfica. Há, portanto, paixão desse realizador em seu trabalho, mas também uma forte crítica às dificuldades que enfrenta na profissão e ao descaso de muitos países em seu continente com a preservação histórica das obras.


Diallo caminha descalço durante todo o longa, dizendo que se não há dinheiro em seu país para criar filmes então como ele, um cineasta, teria dinheiro para comprar sapatos? Certamente por essa lógica, muitos conhecidos meus, e pessoas que tanto admiro aqui no Brasil, estariam com os pés cheios de calos a essa altura, ou talvez sem as solas. Assim como nesse ponto, No Cemitério do Cinema tem sempre um tom militante de indignação, do estudante que teve apoio do país para se formar, mas logo percebeu que para sobreviver fazendo cinema não teria nem de longe o mesmo suporte. Nessa mesma linha, ele visita lugares em que os cinemas fecharam ainda na década de 90, sobrando apenas suas ruínas como monumentos que foram derrubados por uma guerra, com poucos guardiões de alguns de seus tesouros que sobreviveram. As conversas servem como documento histórico, se muitos filmes foram queimados e enterrados vivos, o que resta é a memória de quem viveu para registrar por meio das palavras, diretamente para a câmera de Diallo e sua equipe. Todos tem uma opinião e visão diferente sobre o cinema, cada um tem sua própria relação com ele, do homem que acha bom que agora não precisa mais sair de casa para ver filmes, daquele que guarda as películas que consegue pensando no futuro, como um historiador, e os que acreditam que sem a experiência coletiva, a sétima arte estará acabada.



A relação que Diallo pretende estabelecer com esses personagens é puramente de angariar experiências e histórias, que retratam não apenas uma fase complicada que essa arte vive, como também um panorama da Guiné com o cinema desde sempre. Assim, depoimentos que remontam crises políticas, regimes autoritários, censuras e destruições de rolos de filme, montam uma linha do tempo que começa nos anos 50, passa por apoios e desmontes, e resulta em um pedaço importante dessa história que está perdido, carcaças de salas de cinema e diversas obras correndo o risco de se deteriorarem e se perderem para sempre. O engraçado é que todos acreditam que na França Diallo teria mais sorte, mas ao chegar no país colonizador de tantos na África, ele encontra filmes até em pior estado, e salas de cinema lutando para sobreviver. A perspectiva é muito distante, já que os dois países viveram e vivem jornadas muito distintas em todos os aspectos, mas essa morte da sétima arte atinge a todos de um jeito ou de outro. A diferença é que certamente a França preservou muito mais de sua história cinematográfica - embora a cena do rolo de filme derretido numa cinemateca não saia da minha cabeça - do que um país que sofreu com regimes que destruíram filmes, já que todos eram políticos, e que hoje negligencia completamente a preservação dessa arte.


No Cemitério do Cinema quase rejeita totalmente o digital nessa busca por Mouramani, o filme perdido, sempre pontuado pelo nome como um esforço desse cineasta em manter a obra viva. Existe um elo muito forte no documentário com o passado por meio dos rolos de negativos sempre presentes e toda sua narrativa, mas, ao entregar o aparato cinematográfico simbolicamente para jovens estudantes e crianças, com as câmeras de madeira, além de estabelecer uma relação de fantasia com a magia dessa arte, de criar o que sua imaginação permitir, Diallo incita nas novas gerações o desejo de fazer cinema. Mesmo que olhe tanto para os restos mortais da sétima arte, levanta uma fagulha de esperança no futuro do que ainda será construído no cinema Africano, mas sempre num tom crítico para os descasos e as dificuldades enfrentadas, que são da Guiné mas também existem em tantos lugares, dadas as devidas proporções. Um filme se perde, outro se cria, a história continua contanto que existam pessoas dispostas a registrar e contar e, com sorte, sem encontrar novos destruidores no caminho.


 

Nota da crítica:

3,5/5


 

Filme assistido como parte da cobertura de imprensa da Mostra de Cinemas Africanos.


No Cemitério do Cinema faz parte da edição de 2023 da Mostra, com programação em São Paulo de 5 a 13 de Setembro e em Salvador de 13 a 18 de Setembro.


Confira a programação completa em: https://mostradecinemasafricanos.com/


E acompanhe a cobertura completa clicando aqui



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