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Pinóquio de Guillermo del Toro — Como contar mil vezes a mesma mentira

Guillermo del Toro mostra que não importa quantas vezes uma história seja contada, ela sempre pode ser encantadora se estiver nas mãos certas


Pinóquio de Guillermo del Toro

A nova animação da Netflix aposta na clássica história que ficou famosa pela obra da Disney e que já foi adaptada inúmeras vezes, mas agora com o olhar sempre mágico e autoral de del Toro. O título oficial do filme já carrega o nome do diretor, ainda que divida a função com Mark Gustafson, e é bem claro o motivo já que qualquer um que conheça o trabalho do cineasta pode facilmente identificar sua marca em todos os cantos do longa. Uma das maiores marcas aqui é a mudança histórica, já que nessa versão Pinóquio vem ao mundo durante uma fase sombria de fascismo e guerra na Itália. A pequena cidade onde Gepetto mora serve de amostra para um tanto de comentários de algo muito maior e que aconteceu na história do país e do mundo.

A introdução de toda história de luto de Gepetto é certamente uma das mais emocionantes das animações dos últimos anos, narrada — bem como todo o filme — pelo Grilo falante que aqui é um escritor não tão sábio assim, uma consciência que é constantemente ignorada, na voz incrível de Ewan McGregor. O boneco de madeira é atualizado para um menino atrevido, por vezes até bem inconveniente, mas por um motivo muito claro. Uma das primeiras palavras que ele não compreende é “obedecer” o que introduz também o contexto político que dará o tom da animação de forma nada sutil. Pinóquio não quer obedecer, não quer se adequar ao mundo que o cerca, nem quer ser um menino de verdade, ele só quer ser ele mesmo, ter seus próprios pensamentos e ser aceito e amado da forma que é.

Curiosamente, a estética de muitos personagens me remeteu a algo esculpido em madeira, mesmo que apenas o famoso boneco seja feito do material, como se fossem inflexíveis e duros, diferente das criaturas mágicas que parecem ser mais evoluídas e livres. É como se os humanos aqui fossem muito mais de mentira que os seres fantásticos, talvez por isso também Pinóquio não pretendia ser de carne e osso, porque é muito mais livre ser como ele. Quanto aos cenários, o diretor cria suas típicas atmosferas sombrias que não perdem a doçura e o otimismo do conto de fadas.

Para falar de fascismo, del Toro não usa metáforas nem tenta diminuir os horrores da ditadura de Mussolini, fala de forma até didática que conversa com qualquer idade por sua forma fantástica de lidar com o bem e o mal. Os vilões são retratados como caricaturas do mal, o fascista do vilarejo e o dono do circo de marionetes são figuras intrinsecamente ruins, sem espaço para redenções. Já as figuras fantásticas, típicas da mente do diretor, são complexas, muito mais do que as humanas. A fada azul é uma união de espíritos da floresta e é irmã de uma espécie de morte, representada por uma quimera. Ambas, e também o macaco e o grilo, não são figuras apenas boas ou más, carregam ensinamentos importantes e tem intenções variadas que levam a jornada de Pinóquio adiante para que o menino tome suas próprias decisões, sem limitar seus pensamentos. Já Gepetto, demora a entender que precisa aceitar esse filho de madeira da forma que é, que não há como o moldar para algo mais aceitável ou como o usar para preencher um vazio que nunca foi seu lugar.

As mensagens em geral são clichês de contos infantis, mas a forma que o diretor as usa as transforma em algo fantástico. Se O Labirinto do Fauno (2006) era um conto de fadas sombrio e cheio de metáforas, essa releitura de Pinóquio é como a tradução de algumas mesmas questões tão duras para uma obra facilmente compreendida por qualquer geração, ainda que lide com temas tão pesados. O boneco de madeira zomba e ri da cara de um Mussolini ridicularizado, mas tudo é de certa forma um olhar infantil, carregando diferentes pesos de acordo com o quanto o espectador é capaz de processar, já que para uma criança o fascismo pode ser apenas um conto vilanesco, distante da realidade.

Em geral, Pinóquio de Guillermo del Toro é uma obra sobre não obedecer e se livrar dos opressores, se libertar das cordas de marionete para ser você mesmo e assim, encontrar amor e aceitação, mesmo que isso custe a sua própria vida, ou uma delas. É a visão do diretor sobre vida, morte e amor que conversa com qualquer idade, desde que você não tenha um coração de pedra.


Pinóquio de Guillermo del Toro chega na Netflix dia 9 de dezembro.


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