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Soft & Quiet — O ódio adora companhia

Primeiro longa de Beth de Araújo mostra como ideias silenciosas podem se transformar em atos violentos quando encontram validação em um grupo


Soft and Quiet

O momento não poderia ser mais propício. Apesar de ser uma realidade desde que o mundo é mundo, é notável como nos últimos anos passamos por uma onda de lideranças de extrema direita que validaram discursos de ódio. No Brasil é comum percebermos pessoas que antes pareciam inofensivas e hoje destilam preconceitos e teorias de conspiração absurdas, como se tivessem virado uma chave sobre algo que pensavam e estava escondido lá nos porões da mente, e agora se sentissem livres para falar e agir de acordo com esses pensamentos. Não é à toa, quando há um líder e metade de uma população gritando as mesmas coisas, é natural se sentir validado para ser uma pessoa terrível. E é exatamente isso que Soft & Quiet quer dizer, curiosamente dirigido por uma diretora norte americana, mas que é filha de um brasileiro.

Para adentrar esse mundo extremista, a câmera segue a professora de educação infantil Emily, de aparência controlada, limpa e inofensiva, que irá se revelar aos poucos enquanto a acompanhamos sem cortes. Filmado todo em plano sequência, o filme usa bem seus espaços vazios e o tempo, numa crescente caótica de acontecimentos que prende a atenção por entregar algo mais absurdo a cada momento. São muitos minutos até que finalmente é revelado o motivo que une aquele grupo de mulheres, tudo tem seu tempo, se desenvolve calmamente no começo para depois perder completamente o controle, traduzindo exatamente o ponto que a diretora parece querer chegar. Se a reunião começa com essas mulheres ainda um tanto tímidas, sem saber direito se podem dizer o que pensam, se serão julgadas ou responsabilizadas depois, em pouco tempo elas se encorajam e se afirmam, criando um espaço seguro para o ódio se alastrar.

Assim como na reunião, em que as ideias começam um tanto mais calmas e vão piorando, tudo que acontece depois segue a mesma lógica. Emily vai se tornando uma mulher com menos amarras ao encontrar nas colegas um acolhimento de seus piores pensamentos. Para além do encontro inicial, o longa foca mais em quatro das mulheres, explorando suas personalidades distintas e como cada uma delas tem um papel importante em tudo que vai acontecer. Elas também representam as pessoas reais que andam por aí todos os dias, a mãe de família que cuida bem de seus filhos mas tem uma arma e odeia todos os imigrantes, a mulher pobre que não percebe que é tão oprimida quanto aqueles que julga estarem tirando seu lugar, as pessoas que são facilmente manipuladas por informações incorretas de grupos empenhados em recrutarem novos lunáticos, todas são um espelho de uma sociedade muito real e muito norte americana.

Em certo ponto a diretora faz a escolha de tornar as cenas violentas uma quase fetichização de tortura, se demorando em atitutes extremamente cruéis de forma muito próxima. É extremamente incômodo e difícil de digerir mas serve ao propósito de mostrar o quanto de ódio realmente existe dentro de pessoas que muitas vezes são julgadas como inofensivas, principalmente se pensarmos naqueles que dizem os maiores absurdos na internet mas se portam de outra forma em seus empregos e famílias. É esse o maior horror de Soft & Quiet, mostrar que aquela professora calma e preconceituosa não só fala, mas também carrega dentro de si o impulso de agir, machucar e até matar. Se torna ainda mais efetivo o desconforto com o fato de todas as violências serem de mulheres com mulheres, já que o único homem envolvido na situação se retira rapidamente, e assistimos por longos minutos mulheres brancas torturando descontroladamente outras duas não brancas.

Todo o longa segue uma lógica extremamente possível de ocorrer na vida real, salvo o final, e a cada momento cresce uma sensação no grupo de que nada que aconteceu foi errado, com a constante confirmação de umas para as outras. Não fossem as implicações criminais de suas atitudes certamente seguiram tranquilas, com a certeza de que fizeram sua própria justiça e mesmo assim se apoiam na impunidade que vem com a cor de pele, classe e círculo social.

É como um grande alerta do quão perigoso é subestimar pensamentos extremistas, já que o ódio adora companhia e muitas vezes só precisa dela para ganhar força.


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