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Tia Virgínia (2023) | MostraSP

Vera Holtz encarna o humor refinado e carregado de rancor e é uma das grandes peças desse retrato da loucura familiar tão autêntica e tão brasileira



Todo mundo tem uma tia Virgínia, ou uma mãe, uma avó, ou talvez se torne a sua própria versão. Uma das grandes maravilhas do filme de Fabio Meira é essa identificação fácil que encontra nos espectadores brasileiros, mas que não seria tão eficaz caso seu texto e encenação não fossem tão refinados, indo além da comédia pastelão da família brasileira para criar algo mais complexo e extremamente divertido. Fabio olha para essas mulheres e destrincha as rusgas de suas relações com uma profundidade que só poderia vir de alguém que realmente as conhece. É claro que a inspiração em pessoas reais de sua vida ajuda, e muito, mas é também seu grande trabalho de direção que eleva totalmente o nível do longa. O trio de peso das irmãs, Virgínia (Vera Holtz), Vanda (Arlete Salles) e Valquíria (Louise Cardoso) constrói as dinâmicas mais interessantes, absurdas e engraçadas, com o diretor tirando o melhor de suas performances. Por meio da protagonista, coloca seu olhar focado na mulher que se torna a cuidadora invisível, papel de tantas mulheres em suas famílias, mas vai caminhar entre todas essas mulheres se importando principalmente em retratar seus envelhecimentos com bastante cuidado. Existe uma sutileza aqui no mostrar esses corpos, algo que vi pouquíssimo no cinema é como Fabio filma o corpo da matriarca, a naturalidade e o respeito de quem parece dizer que todos nós chegaremos lá, dando importância para essa carne envelhecida feminina, suas rugas e mudanças, não como um destino infeliz, mas como uma realidade da vida, a qual deveríamos estar acostumados e encarar com naturalidade. Assim, se enfiando nesse caos que é uma noite de natal, quando a maioria das famílias se reúnem e muita roupa suja é lavada, Tia Virgínia deságua toda emoção que provoca em seu humor passivo-agressivo, que transforma os rancores em uma loucura gradual, dando espaço para sentirmos o peso de tudo, mas sem perder seu tom divertido. É uma ambiguidade, que dá leveza ao mesmo tempo em que todas as dores estão lá, escancaradas, mas maquiadas pelo riso.


Parece que Fabio captura a essência das estruturas familiares, essas relações complexas que nos formam e nos abrigam, que nos levam para anos de terapia mas também são toda nossa história de vida. Não seria quase toda dinâmica familiar uma relação de rancor e amor? Aqui, ao focar nesse pequeno universo de classe média e nos papéis femininos, o longa coloca a casa da matriarca como um museu, um patrimônio que todas as filhas se sentem proprietárias, embora só uma delas viva lá realmente. O fantasma do pai assombra cada canto por meio da memória afetiva daqueles que visitam o antigo lar uma vez por ano, se visitam. Para aquelas que habitam esse museu, o ambiente é uma espécie de prisão. Virgínia que foi pressionada pelas irmãs a cuidar da mãe, com quase 100 anos e que serve quase como um objeto que muito observa mas pouco é visto, por ser a única filha solteira, carrega esse rancor que leva a narrativa para frente. Tudo é trabalhado em apenas um espaço, no decorrer da véspera de natal e toda a antecipação para a ceia, explorando a fundo as emoções que só essa data específica é capaz de trazer à tona. Vanda e Valquíria claramente tem seus próprios problemas em suas casas, mas aqui o que realmente importa é a briga central entre elas, pela função imposta à irmã solteira, mas também pela divisão dessa casa, da qual elas se mostram tão donas que é como se Virgínia realmente fosse apenas mais uma empregada delas. Ainda assim, o filme não deixa de compreender a diferença de classes aqui retratadas, mesmo que a protagonista esteja nesse lugar, ela ainda é muito mais privilegiada que Soraia, que aí sim é realmente contratada para trabalhar nessa casa e tratada como toda classe média trata seus empregados.


É delicioso acompanhar o humor de Tia Virgínia que vai na crescente da mente perturbada dessa cuidadora cansada, brilhantemente encarnada por Vera Holtz que se encaixa perfeitamente nesse papel. O fabuloso destino de tia Virgínia, ou sua jornada para a libertação, se dão em encenações que são tão dramáticas quanto cômicas, sempre trabalhando nos respiros que constroem a complexidade e autenticidade das questões ali retratadas, que seguem os momentos de elevação do caos, em diálogos afiadíssimos. Sempre nesse caminho, uma dinâmica mais agitada, engraçada e conturbada e outra em que tudo desacelera e as reflexões fluem na breve quietude. O auge é então a ceia, quando Vera Holtz dá um show, mesmo depois de tantas cenas fantásticas que a antecedem. Ainda que todas as mulheres ali tenham seus dramas e questões, e por vezes possamos sentir empatia com seus momentos, o longa tem seu partido destacado, é impossível não vibrar com Virgínia, mesmo quando ela é bastante questionável, e celebrar seus surtos e sua libertação dessa prisão.


Se a forma como Fabio filma os corpos e mulheres parece nos dizer que essa é apenas a realidade a que todos nós chegaremos, a loucura dessa família é retratada nesse mesmo sentido, como se não só fosse nossa sina chegar a esse ponto - o envelhecer, ver a família se transformar, pessoas partirem e estruturas se complicarem - como também já é a realidade, o que muda ao longo dos anos é só nosso papel nesse peça, um dia somos a neta que só observa a loucura, no outro nós podemos ser Virgínia. E é claro que todas as famílias (e mulheres) do mundo podem se identificar aqui, mas é maravilhoso como tantos signos fazem dessa obra algo autenticamente nosso.



 

Nota da crítica:

4/5




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