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Visions du Réel | Fale Baixinho (2024)

Pedro Balderama retrata a avó com carinho, enquanto observa sem questionar seu modo de ser, a melancolia de sua vida e o humor que atravessa seu flerte com a morte


Fale Baixinho

Esse curta deu quase a volta ao mundo para chegar em mim. Depois de passar por Tiradentes esse ano, com uma exibição online ao que parece, só tive a oportunidade de o assistir cobrindo um festival da Suíça, na minha casa em São Paulo. Falo isso, porque quando os 16 minutos de Fale Baixinho se iniciam, é como voltar para casa - quando se está a muitos dias assistindo a obras de todos os cantos do mundo -, a identificação dos símbolos, gestos, cenários e maneiras de ser, tão brasileiros, é imediata. Maria Onardina é uma típica avó, mas uma pessoa totalmente fora do comum. Uma mulher atravessada por todos os problemas e opressões comuns a seu tempo e espaço, ao mesmo tempo em que é um ser humano único em sua forma de enxergar a vida. Talvez essa descrição seja banal, pois todos somos únicos e diferentes, enquanto compartilhamos questões do meio que nos cerca, mas é a percepção de Pedro Balderama, o neto e cineasta, que torna esse retrato tão bonito e tão especial. Ele compreende a avó, ou ao menos esse recorte que nos é apresentado, e a retrata com um afeto que transborda até nas menores intenções de seu filme ou de sua câmera, Maria fala e Pedro não questiona, pergunta mas dá espaço para ouvir, tudo no seu tempo, do seu jeito. 


A avó, que não gosta de música nem de filmes mas cogitou comprar uma câmera para o neto que faz cinema, fala coisas tristes, mas sua personalidade faz com que tudo esteja sempre em um limite do humor e, como o curta apresenta isso tudo, deixando silêncios e espaços de respiro, costurando imagens da mulher fazendo suas coisinhas ou discorrendo sobre as ligações de telemarketing, eleva uma aura divertida a essa relação de Maria com o mundo, entre a vida e a morte. Assim como existe essa quase contradição entre a arte e o apoio ao trabalho do neto, vindo de um lugar de afeto familiar, existe a música favorita, que ela mesma descreve como linda, com letras românticas, para uma mulher que relata nunca ter sido “de se apaixonar”. O casamento foi uma sina, o marido qualquer coisa, sua jornada parece ter sido decidida por circunstâncias mais do que por si mesma e até o destino final de sua existência depende agora de Deus lembrar de atestar sua hora. 


Pedro filma essa mulher quase excêntrica ao lado de seu túmulo, Maria só aguarda a hora de usá-lo, mas mesmo que a tristeza a tenha afetado tanto, ainda é atraída pela câmera, olha sempre para trás para ver se o neto a filma, fita as lentes e pede para que a ensine a fotografar também. São coisas simples, praticamente uma forma minimalista de se contar uma história, totalmente pautada no olhar de Pedro para Maria que a permite ser, falar e transitar como bem entende. Uma obra de muito amor, acima de tudo, de quem tenta pela observação, compreender o universo do outro.



 

Nota da crítica:

4/5


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