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Crítica - Bizarros Peixes Das Fossas Abissais (2023)

Marão aproveita tudo que a técnica da animação pode fazer para ultrapassar os limites da realidade, criando uma jornada pessoal e surrealista


Bizarros Peixes Das Fossas Abissais

Apresentando seus personagens, Marão nos leva por um passeio por diferentes estilos de traços e cores, como se sua animação não estivesse presa a nenhuma regra ou lógica, e cada cena se torna uma observação peculiar de outro universo. Demora um pouco até começarmos a compreender algumas coisas, principalmente o que é dito, é preciso se entregar a essa liberdade que incentiva nossa imaginação, e aí as frases sem sentido que os rabiscos inimigos proferem ao atacar a heroína poderosa já não precisam ser decifradas. O filme é um grande fluxo em que tudo é possível e nem tudo precisa ser compreendido, basta entrar na viagem surrealista proposta. Talvez seja na primeira vez em que a mulher diz “minha bunda é um gorila” que essa chave é virada, ao mesmo tempo em que a animação dá o poder à palavra, como se apenas o ato de dizer fosse possível para alterar a realidade, ela nos liberta de qualquer lógica. A estranheza que vive em Bizarros Peixes Das Fossas Abissais se alterna com momentos bastante emotivos, que assim que são inseridos, tornam a obra algo que soa bastante pessoal. É como se o filme parasse tudo nessas cenas para partilhar algo que faz parte do nosso mundo, do mundo de seu criador, para desabafar sentimentos tão complexos, que foi na animação que eles encontraram uma maneira de se expressarem. O trio formado por essa mulher cheia de poderes, a tartaruga neurótica e a nuvem meio tarada, com incontinência, vive uma jornada bastante comum em busca de um objetivo claro, mas é a forma que Marão usa sua animação que a torna bastante especial.


É interessante como o texto é essencial nessa divisão que parece ocorrer na narrativa. Nos momentos de reflexão da mulher (Natália Lage) a imagem praticamente se apaga, se torna um recurso meditativo para que se destaque sua voz. Já nos momentos em que tudo segue o fluxo caótico entre batalhas, transformações ou buscas no fundo do oceano, o texto é que se esconde um pouco, dando espaço para a trilha sonora prender nossa atenção na animação e em cada detalhe bizarro, ou os diálogos são tão exóticos quanto as imagens, seja quando as palavras e frases são proferidas uma após a outra sem necessariamente montar algum sentido ou quando são puramente cômicas - destaque para as cenas em que os olhos de um dos animadores são usados como uma profecia. Ser um filme bastante brasileiro é muito divertido nesses pontos também, brincando com a política e estrutura do Rio de Janeiro e colocando uma crise em Araraquara como centro de uma das sequências. Talvez não seja muito fácil a transição entre ambas atmosferas, visto que quando tudo fica mais sério nas reflexões sobre memória e alzheimer é uma mudança bastante significativa para a entrega completamente desprendida que o filme havia precisado desde o começo. São os momentos mais singulares de Bizarros Peixes Das Fossas Abissais que o fazem uma experiência gostosa, e toda a mensagem que ele quer passar é bonita, mas o filme vive muito além dela, principalmente em suas excentricidades.


Marão constrói seus personagens de forma bastante rica. A tartaruga neurótica (Rodrigo Santoro) passa por toda uma introdução milimetricamente coordenada para exaltar esse personagem que é o oposto de tudo que se apresenta no longa, e por isso, tão necessário de se somar à dupla em sua busca. Assim, cada peça se torna fundamental na aventura, o que é bastante típico dos desenhos infantis, uma clássica jornada de herói. Ainda que se descreva como voltado para o público jovem adulto, o filme parece conversar muito bem com as mentes mais desprendidas e imaginativas que existem nas crianças, e a estrutura narrativa - o humor bastante exagerado e as transformações corporais, bem como a luta entre mocinhos e vilões - se encaixa nessa audiência. Ainda que a memória seja tão importante para o longa, tudo em Bizarros Peixes Das Fossas Abissais nos lembra, enquanto adultos, que ainda temos muita imaginação, e ela é um recurso importantíssimo para vivermos. 


Filme assistido a convite da Sinny Comunicação e Vitrine Filmes

Bizarros Peixes Das Fossas Abissais será lançado nos cinemas pela Sessão Vitrine Petrobras em 25 de janeiro de 2024 


 

Nota da crítica:

3,5/5


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