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Crítica - Saudade Fez Morada Aqui Dentro (2022)

Se afastando da exploração da dor contida no drama individual de seus personagens, Haroldo Borges busca o afeto em cada relação e a vivacidade de uma juventude marcada por grandes mudanças


Saudade Fez Morada Aqui Dentro

A câmera se move solta, nas mãos, tremendo, um tanto imprecisa às vezes, perfeitamente habituada à energia tão própria dessa fase da vida que preenche a tela. Bruno pode ter 15 anos, mas sua ligação com a infância ainda é mais forte que a adolescência, essa que chega aos poucos, totalmente atrelada a uma drástica mudança em sua visão. A cegueira é dada como uma sentença sem prazo certo, mas nunca encarada como um foco trágico pelo filme, que se concentra muito mais em todo afeto que atravessa as relações de Bruno com seus amigos, familiares e comunidade. É fascinante essa escolha de abordagem, colocar um garoto em uma fase tão complexa da vida, quando se tem muito mais pela frente, muito o que se entender, aprender e enxergar, para que justamente sua visão seja removida completamente. É quando Bruno começa a compreender mais sobre si mesmo e os outros que é obrigado a se adaptar a outra forma de se relacionar com tudo ao seu redor e Saudade Fez Morada Aqui Dentro o coloca mais em um lugar de observador, um aprendiz do mundo, do que centro de todos seus temas. As questões de sexualidade, por exemplo, são concentradas em sua amiga Angela e pinceladas em sua rotina enquanto o menino é confrontado por tudo não no lugar de quem vive na pele, mas pela posição empática. Os tão comuns preconceitos carregados nessa idade são presentes, de forma natural como realmente existem na juventude, nas escolas e casas mais conservadoras, mas a posição em que o longa estabelece seu protagonista o faz capaz de atravessar essas problemáticas, compreendendo o outro. 


A cegueira, os preconceitos e conflitos poderiam ser explorados em uma jornada dolorosa, mas Haroldo Borges escolhe o aprendizado pelo afeto como a chave de seu coming of age. O acolhimento dos colegas e professores não garante que a vida de Bruno será tranquila e que a transição será fácil, mas estabelece uma comunidade próxima que é quase uma continuidade do núcleo familiar. É uma história carregada por esse próprio lugar em que é ambientada, as casas, a vizinhança, as festas locais, com música, dança e todo sotaque que dispara em gírias nas conversas entre Bruno e seu irmão enquanto o regional se torna universal. Nem todo mundo, em todos os lugares da terra, vai compreender exatamente algumas expressões ditas, mas o olhar adolescente encantado, a briga no futebol, o ciúmes, o amor partilhado entre irmãos e as frustrações tão típicas dos 15 anos, são linguagens divididas pela humanidade. É assim que Saudade Fez Morada Aqui Dentro ainda que dê toda importância necessária para a dor de Bruno e os problemas que o cercam, prefere se concentrar no que há de mais bonito, simplesmente observando em várias cenas os dois meninos dançando ou rindo juntos deitados na cama, buscando com sua câmera seus olhos brilhantes e sorrisos, sempre lembrando quem assiste de que aqueles são acima de tudo, apenas jovens aprendendo a viver.


São, portanto, as coisas simples que mais valem a Haroldo Borges em sua observação quase espontânea, da forma como Angela é carinhosa com o amigo até a gentileza com que o professor se disponibiliza a ensinar e dar todas as ferramentas que Bruno precisa para passar por essa transição. Os olhares, risos partilhados, os corpos que se encontram na dança, tudo é registrado sem pressa, por várias cenas que nem sempre carregam diálogos, só contemplam os encontros de forma sincera. A mudança de visão de criança a adolescente, de pessoa que enxerga para a cegueira, se dá majoritariamente por transformações internas, colocando Bruno como esse aluno da vida, aprendendo a compreender os outros e a si mesmo, tudo que lhe é diferente e novo, dentro e fora de suas vivências. Ainda que seja o poder da imagem que construa tudo que o longa precisa dizer, o enxergar com os olhos não se faz mais importante do que o sentir. É como uma lembrança da juventude, dos primeiros afetos e dores, quando a vida ainda era uma estrada com tanto caminho em branco a se percorrer e ao mesmo tempo, cada aflição tão intensa, que mora principalmente no peito, como algo abstrato, difícil de descrever, mas muito vivo.


Filme assistido na abertura do 50º Festival Sesc Melhores Filmes


 

Nota da crítica:

4/5


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