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Tribeca 2024 | Agarrame Fuerte (Don’t You Let Me Go)

Ana Guevara e Leticia Jorge trabalham com simplicidade e um toque de fantasia, uma perda dolorosa que se transforma calorosamente por meio da fuga da realidade


Agarrame Fuerte (Don’t You Let Me Go)

Adela (Chiara Hourcade) sente que uma parte do seu corpo se foi, essa informação tão profunda é entregue quase como um poema, mas compreender realmente o significado dela leva cerca de uma hora. A dupla de diretoras, também responsáveis pelo roteiro, apresenta seu filme como algo tão singelo que cada detalhe delicado parece um presente dividido carinhosamente com quem assiste. O ritual do velório, algo bem compreendido da maneira como está colocado em Agarrame Fuerte (Don’t You Let Me Go) pelos latinos, se dá de forma bastante protocolar, não há nada vibrante em cena, apenas pessoas sóbrias em grupos que se acolhem, uma sala de madeira, uma grande cruz e muitas flores, mas a foto de Elena parece um ponto de luz, dos cabelos alaranjados ao rosto brilhante, a mulher a qual a morte une a todos nesse lugar, só aparece nessa pequena imagem, capaz de mostrar quão especial ela é. Muitas mulheres se unem, essa energia feminina é exalada em como os grupos se juntam para lembrar a perda da amiga e parente, elas se abraçam, choram, dão risada, são todas mulheres e os homens só aparecem praticamente em menções rápidas. Ana e Leticia se preocupam em gerir esse processo ritualístico quase remetendo mesmo a uma antiguidade, ou como ainda é em algumas culturas, em que as mulheres preparavam os mortos para a passagem. Embora elas nunca toquem em Elena e seu corpo não passe de um caixão que pouco se faz presente nas cenas, as conversas e arranjos se tornam fundamentais para o processo do luto de cada uma delas, mas é impossível para Adela deixar sua melhor amiga ir dessa forma. Esse laço é quase incompreensível nos primeiros minutos, porque não é pela dor que Agarrame Fuerte busca construir a relação dessas duas, mas sim pelo amor que dividiram em vida e que permanece intocado em Adela.


Portanto, pouco importa ao longa explicar como Elena se foi, é possível ouvir alguém dizer algo sobre uma doença em certo momento, mas de fato, a morte está dada e não se faz necessário compreender suas circunstâncias, mesmo que se trate de uma mulher tão jovem. Enquanto Adela chora sozinha em seu carro, fica claro que embora houvesse três mulheres mais próximas, em destaque nas sequências durante o velório, é apenas o vínculo dela com a amiga que partiu que devemos acompanhar. Seu luto tão forte, como se uma parte de seu corpo fosse arrancada, a leva em uma viagem além do corpo, dentro de um ônibus, espontaneamente se deixando levar para encontrar Elena ainda viva. Não é que Adela simplesmente voltou ao passado, visitando uma lembrança gostosa de sua amizade, mas é a mulher do presente, totalmente consciente da morte da amiga e da jornada que está realizando, que retorna uma década no tempo para matar as saudades. A chegada transforma a encenação em algo caloroso, pelo ambiente da praia, mas também pela energia tão viva de Elena, que parece um sol próprio irradiando ao redor de tudo sua luz, com seu cabelo laranja e blusa amarela. Os corpos se encontram em um afeto que busca preencher todos os sentidos, captar os cheiros, o toque da pele, cada pequena sensação de estar novamente abraçando a melhor amiga. Adela não a encontra com uma urgência comum, com a afobação típica de quem vê um fantasma que voltou à vida, é sem surpresas e desesperos que a mulher emana a falta que sente, sem pressa de passar cada segundo nessa fuga da realidade.


Nessa viagem, Adela abre espaço para a outra amiga, Luci e seu bebê Paquito, deixando alguém de fora, talvez porque realmente só fossem as três amigas e o pequeno durante essa lembrança, ou porque foi assim que ela quis, já que a protagonista parece ter algum controle desse escape. A imagem por vezes falha, as pedras tem olhos que piscam, Ana e Leticia pincelam elementos de fantasia para compor essa viagem que é um pouco de tudo, mas é principalmente algo muito simples, que emana afeto. Para lidar com a perda, Adela não busca mais sofrimento, não se angustia pelo curto período que é estabelecido nesse final de semana na praia, ela agarra a amiga por saudade, por amor, não é que ela não consegue a deixar ir, na verdade, Elena já se foi e tudo que assistimos é apenas uma forma muito bonita de sua melhor amiga escapar daquele mundo cinza que perdeu seu sol alaranjado. O fim do encontro das amigas se dá naturalmente em outra fuga, cada vez mais abraçando a fantasia para resolver as dores muito reais, o quadro na parede se torna um portal, aberto justamente por uma criança, em que os quatro podem prolongar essa evasão.


Agarrame Fuerte é um título muito mais bonito em seu idioma original, transmitindo exatamente o calor que essa obra singela passa em pouco mais de uma hora. Elena é uma personagem tão apaixonante que me pego ao final também sentindo sua falta, tudo por como as câmeras emulam o olhar amoroso de Adela para ela, seu sorriso, sua forma de se mover, seus cabelos vibrantes enrolados em um coque desajeitado, seu jeito de adoçar o suco ou maquiar as amigas. Cada pequeno momento é uma lembrança passada que se torna nova, uma despedida que é também um reencontro, uma saudade que se nega a encontrar o mundo real e chato, busca viver o quanto puder nessa fantasia de imagens que abraçam e aquecem. 



 

Nota da crítica:

4,5/5


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