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Tribeca 2024 | Eternal Playground

Em leitura bastante nostálgica do luto, Pablo Cotten e Joseph Rozé criam uma atmosfera doce e segura para seus personagens brincarem de voltar no tempo


Eternal Playground

Ao assistir a Eternal Playground (La Récréation de Juillet) a estética do filme, filmado em 16mm, pode te transportar para outras décadas, embora a carta deixada pela irmã aponte o ano de 2022, a fotografia e o figurino dos personagens parecem mais tirados dos anos 90 ou começo de 2000. Ocorre que esse reencontro, pautado pelo luto da amiga que se foi, toma lugar no espaço de infância desses jovens adultos e, dessa forma, evoca um passado que se entrelaça com o presente. Talvez seja a visão de Gaspard (Andranic Manet), que em um ato de desespero confabula para unir os antigos amigos e por isso acaba enxergando tudo pelas lentes antigas de sua criança interior, mas fato é que uma vez inseridos nessa lógica, todos passam a se portar um pouco como meninos e meninas brincando nas férias. A presença da irmã gêmea sempre se faz pelo voice-over, construindo uma ideia de que Gaspard conversa com essa voz doce dentro de sua mente, algo entre uma presença espiritual e uma criação imaginária do homem para lidar com a morte de Louise. Para trabalhar essa infância que se manifesta, a escola se dá como cenário perfeito, vazia devido às férias, nem Gaspard que trabalha como professor lá, nem os outros amigos, parecem preocupados com a propriedade, uma vez que passam por seus muros, voltam a agir com a irresponsabilidade que tinham enquanto pequenos alunos. A relação entre todos resume o costumeiro da vida adulta, um grupo que era próximo e agora não sabe mais nada um do outro, afastados pela realidade da rotina, mas que agora encontram na perda uma desculpa para se unirem e nas brincadeiras infantis um jeito de se expressarem.


A forma como a encenação se dá, por esse olhar muito inocente do professor de música, não se aprofunda de forma muito específica em nenhum dos amigos do grupo, passa por cada um observando inquietações, uma gravidez confirmada, a atração reprimida pela colega, a dor da perda da melhor amiga, e afins, mas o foco sempre é a frágil mente de Gaspard, totalmente abalado pelo luto. Esse caminho nostálgico forma um abrigo seguro dentro da escola para os amigos quase desconhecidos compartilharem seus jeitos de ser sem repressões, seus corpos adultos voltam a agir como crianças no intervalo da aula mas com medos muito maduros. Assim, quando a verdade sobre a carta deixada por Louise antes de morrer, justamente a motivadora desse encontro da forma como se deu, é revelada, o irmão gêmeo se torna mais imaturo ainda. Os sentimentos de todos se revelam por esse prisma, dos confrontos às soluções, seja quando os medos de Lou a levam até o telhado ou quando Gaspard faz birra e manda todos embora. Porém, é quando o protagonista se encrenca, por consequência de sua infantilidade de processar tudo que aconteceu, que o grupo de amigos usa esse combustível aventureiro providenciado pela viagem aos tempos de escola, para o livrar das respostas e punições mais adultas que o mundo o daria. 


A movimentação do grupo em arquitetar rapidamente um plano para salvar o amigo, a forma como Adel enfrenta o antigo professor, tudo remete a uma travessura de crianças, e talvez, jovens adultos perdidos na vida sejam mesmo bem próximos disso. É com esse olhar ingênuo e doce que Pablo Cotten e Joseph Rozé abraçam seus personagens mesmo em suas atitudes mais imaturas e perigosas, como soltar fogos de artifício em um prédio fechado, ou fugir com as roupas roubadas de um bombeiro. O laço de amizade de infância que se dissolve pela progressão do tempo só é restaurado quando o grupo recupera dentro de si suas crianças que cresceram, deixando do lado de fora dos muros a vida de gente grande. O que o futuro reserva para essas relações, não importa tanto, já como o título em inglês evoca, o pátio da escola será eterno da forma como se mantém em suas memórias, e os caminhos traçados na maturidade são outros. O grande intuito de Eternal Playground, desde como filma e fotografa belamente suas cenas, até a forma como seus atores se portam, é captar a essência de um tempo passado, da alma jovem e inocente, resgatada para lidar com as maiores dores que nenhum adulto compreende bem.



 

Nota da crítica:

3,5/5


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