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Tribeca 2024 | Some Rain Must Fall

Imprimindo a tristeza de sua protagonista por meio da fotografia, Qiu Yang aborda classe e gênero na família chinesa, partindo do afastamento e melancolia


Some Rain Must Fall

Provavelmente o trabalho mais importante de Some Rain Must Fall é a condução de Qiu Yang de sua protagonista, Cai (Aier Yu) junto à fotografia de Constanze Schmitt, justamente os dois prêmios recebidos pelo filme em Tribeca. A mulher de classe média, aos 40 anos, transmite uma inquietação silenciosa com a vida, mais do que tudo, é sua tristeza que inunda cada cena e, para isso, Cai se espreme nos cenários, em que o filme constantemente a coloca em segundo plano, ou limita seu espaço por alguma barreira física ou de iluminação. Lavando o longa com um verde claro que se mistura a uma luz mais quente, porém nunca para transmitir sentimentos calorosos, amarela ou vermelha, a narrativa busca se afastar de seus personagens, dificultando a visão de seus rostos. A filha da protagonista passa diversas cenas sendo apenas mencionada ou observada de costas, passando ao longe, de lado, o mesmo acontece com outras pessoas, sendo a mãe de família a única a ser mais facilmente reconhecida em tela, e mesmo assim, em diversos momentos, seu rosto não é visto de frente, nem de perto. A curvatura de suas costas mantém Cai de cabeça baixa grande parte do tempo, é uma mulher cansada de sua própria vida, triste, com um futuro incerto mas com uma decisão importante já sedimentada. O divórcio parece algo dificultoso, talvez culturalmente, precisando que a mulher lembre o marido algumas vezes que os papéis estão prontos, que devem ser assinados, que essa separação está para ser concluída. Então, embora exista esse afastamento, Qiu Yang imprime nas imagens o que está dentro de sua protagonista, não a conhecemos completamente pelo que ela diz, mas por seus silêncios, pela forma como se move e se esconde nas sombras das cenas que iluminam apenas os ambientes ao redor, por seu papel como mulher na casa e na família, pelos segredos que esconde e se manifestam fisicamente em seu corpo.


As dinâmicas entre personagens se dão de forma praticamente escondida de nós, a empregada da casa toca Cai em alguns momentos, quase sempre posicionada de costas ou de forma que não possamos ver propriamente seu rosto, enquanto não compreendemos se aquilo causa desconforto ou excitação na mãe de classe média. É assim também quando resolve ter um encontro sexual com o marido, prestes a se divorciar, e a câmera se concentra em suas cabeças deitadas, estaticamente captando algo que parece ser tudo, menos prazer. É difícil compreender Cai, suas motivações e sentimentos, tudo sempre observado por nós como se estivéssemos escondidos nos ambientes, atrás de uma porta ou parede, intrusos em sua vida melancólica. Esse marasmo da mulher sempre exausta emocionalmente, ao que parece, acompanha o ritmo da montagem, que mesmo quando poderia se demorar um pouco mais em alguma cena, deixando um pensamento respirar ou um olhar se acomodar, corta de forma seca a outro momento, é calmo, lento, mas ainda assim, colabora para sufocar a protagonista nesse mundo em que ela pouco parece ter suas vontades exercidas. 


Embora o acidente com a bola que acerta uma senhora idosa - este também filmado com o mesmo distanciamento, nunca mostrando nem o que realmente aconteceu nem a pessoa em questão - pareça ser o motivador da narrativa, ouso dizer que a vida de Cai caminharia pelos mesmos lugares não fosse isso. A separação já estava acontecendo, a decisão já fora tomada, e toda encenação indica que a mulher estava há muito tempo passando por esses mesmos questionamentos e problemas. O que se altera, ao que parece, é a relação com a filha, diretamente afetada pela situação por ser colega de escola do neto da mulher acidentada. Aos poucos, o rosto dela começa a se revelar um pouco mais nas cenas e ela se torna uma espécie de cúmplice da mãe, ouve seu segredo, ainda que modificado para poder ser compartilhado, visita a família de origem, revelando um abismo de classe e uma rusga antiga que os afasta, e conhece, mesmo sem compreender totalmente, um pedaço importante do passado de Cai. É por meio dessa dinâmica com a filha que o filme estabelece um paralelo à dor de dente, o incômodo dessa pequena parte do corpo apodrecendo e finalmente, sendo resolvida, se dá ao mesmo tempo em que Cai resolve seus problemas se aproximando da filha, revisitando seu passado mal resolvido e finalmente, finalizando a separação. 


Não existe nada que não seja triste em Some Rain Must Fall, carregado pela atmosfera opressiva que pesa sobre sua protagonista, a acompanhando tentando se encaixar nos espaços apertados, na profundidade que a afasta, na escuridão que toma conta dela, atravessando a dor para, enfim, depois da chuva, encontrar algo que se assemelhe a um alívio. 



 

Nota da crítica:

3/5


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