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As Pontes de Madison (1995)


As Pontes de Madison

Francesca é uma mulher que saiu da Itália e foi para os EUA para ficar com seu marido, para ela a ideia de ir para a América foi encantadora e irrecusável. Logo no começo do filme é possível perceber que Francesca nada mais é do que uma dona de casa, dedicada à sua família e às tarefas domésticas, é como se ninguém lá fizesse nada sem os braços da mãe e esposa. Nada muito diferente da realidade.

Quando o fotógrafo chega em sua cidade, parece que uma luzinha já quase apagada em Francesca começa a brilhar novamente. Longe de sua família, essa mulher tem a chance de viver algo onde ela finalmente seria a protagonista. A presença de Robert traz nova vida para ela, dá pra perceber como ela começa a se sentir interessante novamente, se arrumando, comprando um vestido novo, podendo falar sobre si mesma. Nesses momentos o caso entre os dois não é só um caso, é o momento de Francesca escolher algo para ela diferente do que foi imposto socialmente, são os momentos de felicidade onde ela é vista por alguém, enxergada como mulher e não como uma peça estrutural da casa, uma engrenagem familiar. É uma fuga de 4 dias no meio de uma vida inteira.


Chegando o fim desses dias ela tem uma escolha a fazer, largar tudo e viver essa paixão ou ficar com sua família. Se me perguntassem eu diria que nenhuma das duas seria uma boa opção, afinal fugir com esse homem seria apenas ligar novamente seu destino a outro homem e não tomar as rédeas da própria história. Considerando a época dessa história eu entendo a bifurcação em que Francesca foi colocada e porque suas opções pareciam tão limitadas. É isso também que define sua escolha.Em uma cidade onde as fofocas tomam conta da pequena sociedade em que os moradores estão envolvidos e que mulheres que não seguem as ‘regras’ são marginalizadas, que escolha tem realmente uma mulher? Em uma sociedade patriarcal que nos ensina o casamento e os filhos como o único caminho possível, que escolha tem realmente qualquer mulher?

Francesca é incapaz de se colocar como prioridade em sua vida em detrimento de sua família. E isso é um lugar comum para as mulheres. Estamos em 2021 e mesmo assim eu consigo imaginar uma mulher escolhendo a infelicidade por medo de deixar sua família para trás. A culpa feminina é até hoje a maior moral da sociedade. Isso fica mais claro quando ela discute com Robert na manhã seguinte à noite que passam juntos, é claro para mim a culpa que ela já carrega e que ela está avaliando todos os contras de seguir o outro homem sem pensar que talvez ela mereça algo melhor, seu próprio caminho.Ao menos seus filhos levam algo de sua história, destaco aqui principalmente a filha que finalmente coloca em reflexão seu casamento e parece estar colocando seus interesses em primeiro lugar depois de saber de todo o sofrimento da mãe.


Se o filme tentou dizer que a família é importante com o fato de Francesca escolher esse caminho, comigo funcionou de forma oposta. Francesca merecia viver sua vida sem ter seu destino preso a um homem, financeiramente, moralmente e em todos os sentidos, merecia depois de anos dedicados aos filhos ser protagonista de sua vida. Por 4 dias ela foi feliz, por 4 dias alguém enxergou ela e pelo resto da vida ela viveu das lembranças e da ideia do que poderia ter sido, focando em suas tarefas domésticas para aliviar a saudade.


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