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Crítica - 13 Sentimentos (2024)

Com comédia romântica doce que explora uma identificação com as emoções, Daniel Ribeiro trava na artificialidade que o impede de ir além


13 Sentimentos Crítica

10 anos depois do sucesso de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro retorna à direção de longas usando muito de si mesmo para construir seu filme. Os personagens agora são adultos e tudo que eles vivem é extremamente atual. O tempo entre um filme e outro é também a duração do namoro que se encerra fora das câmeras, e quando João (Artur Volpi) entra na tela, uma porta se abre para depois se fechar atrás dele, representando o fim desse ciclo que é também um espelho do próprio término do diretor, a inspiração para o roteiro. Então, o que Ribeiro traz é uma conversa fácil de se identificar, seja pelo fim de uma fase que joga as pessoas nesse mundo moderno de relacionamentos por celulares e aplicativos, a vida solteira no século XXI, ou pelo sentimento de ser um adulto meio perdido, com carreira estagnada, grana em falta e uma perspectiva de futuro embaçada. O curioso é que nem João nem ninguém ao seu redor demonstra algo muito além de uma alegria quase delirante, abraçada por uma iluminação bastante simples e clara que inunda as cenas como se sempre fosse um dia brilhante e cenários bastante controlados que remetem a estúdios de novelas. Ocorre que 13 Sentimentos concentra em seu texto algo muito genuíno, ao que parece, mas a imagem e a encenação passam uma artificialidade estranha, como se Ribeiro travasse as emoções de fluírem pela forma. É algo parecido com o que acontece com seu protagonista, que está sempre rindo, feliz, e mesmo quando as coisas parecem mais sérias, dramáticas ou tensas, sua expressão logo retorna ao riso e ao jeito tímido de ser, impedindo que muitos sentimentos sejam processados e assim, transmitidos em tela. A identificação existe, o hoje está ali, as emoções também, mas a artificialidade emperra tudo em uma unificação que remete a um estúdio qualquer.


O esforço em trazer o mundo digital para o filme é interessante quando traduz o que seriam conversas em mensagens de textos em aplicativos de namoro para uma divisão de telas que posiciona os atores falando o que estariam digitando, devidamente rotulados como nos cardápios digitais. Esse recurso funciona bem porque é capaz de transmitir o incômodo, a graça e até a vergonha de algumas interações que acontecem nesses cenários, mas é claro que até isso passa pelo grande controle do diretor, todo mundo é bonito, sarado, simpático e de sorriso largo, até os desconfortos são meramente alívios cômicos agradáveis. Para uma vida de recém solteiro após 10 anos fora do mercado, João não se mete em nenhuma presepada de verdade, ou talvez até se meta, mas nessa mesma lógica muito limpa, tudo soa mais alegre e positivo do que poderia ser. A estética estéril de tudo não se altera nem ao menos quando o sexo entra de forma mais firme na trama, é animador o desvio na carreira que leva João a se tornar um diretor pornô, já que o homem é um aspirante a cineasta que enfrenta muitas barreiras comuns em nosso país para produzir seu trabalho e encontra no gênero da pornografia uma forma de ganhar a vida. No entanto, isso também é sempre muito limpo e tranquilo, o que faz com que as únicas cenas de sexo realmente colocadas em tela, surpreendam de alguma forma, pois pouco é explorada essa sensualidade mais frontal, ainda que os temas estejam ali voando. 


Da mesma forma, os dois amigos negros muito próximos de João, Alice (Julianna Gerais) e Chico (Marcos Oli) servem de mais apoio cômico, garantindo os momentos mais divertidos mas também formam um núcleo que carece de se libertar. Os papos entre os três servem apenas para a progressão do protagonista e suas vidas pouco exploradas os tornam quase muletas que inexistem além de João, talvez seja partilhado mais sobre a vida pessoal do casal marmiteiro que de seus melhores amigos, explorando apenas o que de mais engraçado possa se tirar de suas atuações (destaco aqui o ótimo trabalho de Marcos Oli), mas pouco observando suas humanidades. O fato é que tudo isso acaba na mesma problemática, 13 Sentimentos fica sempre nesse lugar muito plástico, retraído, é muito doce, tem muito em seu texto mas não se deixa levar quando traduz em imagens, não abraça as emoções verdadeiramente. Já o recurso de conversar com o próprio cinema é bem interessante, colocando essas ilusões de João com a vida amorosa na dinâmica de um roteiro que se escreve e reescreve a cada nova pessoa, Ribeiro usa bem a ideia tanto para explorar o psicológico do protagonista, quanto para avançar a trama. 


O longa não deve nada a muitas comédias românticas genéricas que existem aos montes hoje nos streamings, mas para algo que contém questões tão pessoais e humanas, que propõe trabalhar sentimentos verdadeiros e em que é possível enxergar que essa intenção foi colocada no papel, é como se Daniel Ribeiro tivesse encontrado alguma barreira, seja técnica ou criativa, que auxiliasse seus atores e suas imagens a transmitirem com mais autenticidade seu potencial. Longe de ser mal feito ou caricato, pelo contrário, é fácil ver que é verdadeiro o que contém, mas a impressão é que cada cena é filmada como uma novela de estúdio simplista, prejudicando até o tesão das cenas de sexo que se colocam como um amontado de corpos se tocando, suando, mas sem transmitir o desejo de pele realmente. É esse o maior problema que afeta tudo e não permite ao simpático 13 Sentimentos ir além com sua doçura e humor. 


Filme assistido a convite da Vitrine Filmes e Sinny Comunicação

13 Sentimentos chega aos cinemas brasileiros em 13 de Junho de 2024


 

Nota da crítica:

3/5


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