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Crítica - Fúria Primitiva (2024)

Dev Patel faz estreia fraca na direção de longas, com inexperiência no uso das imagens dentro da ação e um olhar estrangeiro para a Índia

Crítica Fúria Primitiva

A vingança sempre foi a melhor amiga do gênero da ação. Há não muito tempo atrás Chad Stahelski trouxe um novo marco e desde então ficou quase impossível falar sobre esse cinema sem dizer algo a respeito de John Wick. Nesse mesmo cenário, a Netflix tornou o contato com o gênero feito pelos indianos mais possível tanto para cinéfilos interessados quanto ao público geral, basta não ter preconceito com as típicas três horas de duração e você pode encontrar alguns dos filmes recentes mais legais produzidos por lá, a grande maioria (ou talvez até mesmo todos) usando a vingança como seu motor principal. O que é conhecimento geral de muitas pessoas que só conhecem o cinema pela língua que hollywood fala quando o assunto é Índia, geralmente já vem com o nome de Dev Patel atrelado e o sucesso de 2008 de Danny Boyle ou o menos popular mas tão apelativo ao público quanto, Lion. Traço essa introdução em 3 pontos porque os vejo como fundamentais para compreender o que o diretor iniciante e ator bem estabelecido quis tentar fazer com seu filme e seu próprio resultado, primeiramente retratando essa Índia estilizada nos moldes do cinema que fala inglês, olhando para um submundo de crimes e pobreza que explora a miséria ao máximo em uma fotografia bem genérica, depois confrontando o ícone atual da ação desse mercado mais abrangente, colocando literalmente o nome de John Wick para o rejeitar explicitamente, e, por fim, tentando trazer temas e ideias que conversem com o cinema de ação indiano, mas soando alarmantemente como um estrangeiro que pouco tem intimidade com o assunto. Patel quis fazer sua própria ação que conversa com suas origens, mas sua inexperiência é gritante e a trama simplista não facilita o resultado. 


É bastante comum nos filmes indianos recentes do gênero o tema das terras roubadas e famílias que sofrem violência e abusos de grupos poderosos, portanto, o passado do protagonista é bastante pautado nessa referência e problemática real. Mas, se nos filmes mais criativos e fantasiosos que encontramos existe uma preocupação bastante legítima em dar foco a uma crítica política nesse sentido, o que Dev Patel faz é utilizar esse argumento como mera justificativa de seu personagem, batendo mil vezes na mesma tecla. Fúria Primitiva (Monkey Man) insere por flashbacks toda a história vivida por sua mãe e em pouco tempo fica muito óbvio o que se passou, mas o resgate continua até a exaustão, não como combustível que empurra o jovem lutador, mas como recurso capenga de informar o espectador. Na altura em que as cenas se tornam mais nítidas e tudo que ocorreu no assassinato da mãe é exibido com calma, já se torna quase um fetiche em mostrar essa dor e essa violência, que já tinha sido largamente explorada e explicada. Essas voltas tornam bastante cansativa a jornada do homem em busca de vingança, visto que sua trama é bastante simplista e batida dentro do gênero, então se repetir demais vira uma cilada, caberiam então às cenas de ação talvez darem alguma vida ao longa. Ocorre que Patel é inexperiente no gênero e a câmera de Fúria Primitiva não se sai bem na condução das lutas. 


A tentativa de ser dinâmica torna a encenação bagunçada e a montagem esconde muitas coisas. Basicamente, pouco se vê da ação no filme, não empolga na sua alternância entre emular a visão turbulenta do personagem e uma movimentação muito rápida no meio dos golpes. A rejeição a John Wick citada lá no começo parece boba ao passo que se vê que Dev Patel não tem nem de longe a consciência de Stahelski de transformar os conflitos corpo a corpo em algo espetacular e toda sua ambientação indiana parece engraçada já que não faz jus ao show de ação que eles sabem dar. Mesmo assim, o diretor novato tenta transformar cada sequência em algo grandioso, a montagem picotada e a trilha sonora estão sempre indicando que as cenas exibidas são algo extraordinário, mas isso ocorre tantas vezes que quem assiste pode se cansar e pensar o que será que vai acontecer quando o conflito realmente importante chegar. O que se vê em tela não acompanha a empolgação passada por esses recursos, e embora a manipulação seja válida para maquiar o resultado, qualquer um mais experiente no consumo do gênero sabe que não tem nada de especial naquelas imagens. 


Trazer um grupo de pessoas trans para a jogada é interessante e forma um dos momentos mais legais do longa, a introdução de uma cena de luta que novamente não faz nada de especial, é impossível enxergar qualquer movimentação melhor, mas ver as pessoas unidas para lutar dá algum respiro. O problema é que Patel não aceita a simplicidade de sua trama de vingança e tenta enfiar coisas que ele mesmo não consegue trabalhar, o próprio grupo que serve de apoio - afinal ele não é John Wick, é apenas um homem comum que precisa de reforços -, mas não vai além disso, a mulher que é seu interesse romântico, o guru espiritual maligno, que nem era seu alvo e se torna o confronto final, a cafetina e o aliado criminoso que se perde no caminho, todos são acessórios no show do protagonista que no fim é apenas uma jornada comum de revide que quer se rebuscar. Talvez valesse a pena compreender e trabalhar no minimalismo do que se tinha, afinal não há nada de errado em uma trama simples, mas Dev Patel pensou em fazer algo diferente que não cabia em suas mãos, por falta de experiência como diretor, intimidade com o gênero ou com o universo que queria usar, não sabemos qual fator foi mais decisivo aqui, mas certamente ele soa como um novato em todos os pontos. 


Filme assistido a convite da Diamond FIlms e Sinny Assessoria e Comunicação

Fúria Primitiva chega aos cinemas brasileiros em 23 de Maio de 2024



 

Nota da crítica:

2,5/5


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