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Crítica - Todos Menos Você (2023)

Will Gluck faz do básico um gostoso escapismo de pessoas perfeitas, livres de problemas, que não tem outro objetivo além de divertir e deixar o resto fora do cinema


Todos Menos Você

Os anos 2000 já estavam quase chegando quando Julia Roberts tentava desesperadamente destruir o casamento de Dermot Mulroney com Cameron Diaz, e essa talvez seja a maior lembrança coletiva que temos de uma comédia romântica de sucesso e marcante, ou pelo menos é quando falamos da minha geração. Quase 30 anos depois o cenário do gênero se modificou bastante e hoje ele se tornou praticamente um produto pasteurizado para as prateleiras de streamings, depois de anos vivendo seu auge. É assim que sempre existe um misto de esperança com receio quando vemos um desses filmes ter fôlego de chegar aos cinemas por aqui, mas Will Gluck não é novato na área, e embora Amizade Colorida (2011) seja mais próximo de seu novo lançamento, A Mentira (2010) é o melhor exemplo de como ele já soube muito bem o que fazer com as comédias românticas, mas num campo mais adolescente. Os tempos são outros e Dermot Mulroney já não consegue ser o galã protagonista, mas retorna em Todos Menos Você como uma piscadinha aos fãs de seus sucessos dos anos 90 e começo dos anos 2000, ou será que como um aceno de esperança? Verdade seja dita, Will Gluck sabe que está fazendo um filme em 2023 e não pretende se valer de referências, nem tenta inventar a roda, a sombra dos sucessos de Julia Roberts existe, mas não é a intenção de Todos Menos Você ser o representante de uma nova geração, nem o resgate de um gênero, sua única motivação é divertir o público e tentar fazer com que todos esqueçam qualquer problema fora do cinema. Os corpos esculpidos de seus personagens, lindíssimos, ricos e felizes são exaltados assim como as belas paisagens da Austrália. Esqueça qualquer momento de desabafo, reflexão ou busca de sentido, duas pessoas vão se apaixonar, se odiar e se apaixonar novamente, e é só isso que importa.


Para tal objetivo, Todos Menos Você depende do básico que faz muita diferença caso não esteja bem afinado, a química do casal central. Bea (Sydney Sweeney) e Ben (Glen Powell) - veja, até seus nomes são simples - podem parecer aquém dessa missão, um casal branco, loiro, sarado e heterossexual, talvez a mistura mais sem tempero que podemos encontrar hoje em dia no audiovisual, mas impressionantemente, perfeitamente unidos nessa proposta. É que Gluck realmente busca em seu novo filme uma estética simplista, de pessoas que não enxergam problemáticas em suas vidas, então quem melhor do que esse casal para representar o centro de tudo. Duas pessoas tão egoístas que só conseguem focar em sua própria relação se esquecendo da vida dos outros ao seu redor, o que é um clássico da trama das comédias românticas também, há muitas décadas. Mas, hoje, em tempos em que temáticas e pautas parecem ser tão importantes para o público, Todos Menos Você só tem a oferecer gente gostosa que foge de conversar sobre qualquer coisa séria. Enquanto isso, os amigos negros servem de apoio de fundo tanto quanto o casamento lésbico, o que também não escapa da lógica do gênero - afinal, era Julia Roberts que usava seu amigo gay de muleta para a jornada egoica que tanto amamos. O escapismo que deu milhões a Hollywood vem com tudo aqui e é uma delícia observar esses dois e sua química que só existe nesse cenário “perfeito”, criado pelo cinema.


O filme estadunidense talvez tenha recebido um bom patrocínio do governo da Austrália, já que suas paisagens, serviços, fauna e flora são extremamente exaltados, em uma alternativa que só poderia ser substituída pelo Havaí talvez, para ter o mesmo efeito. Praias paradisíacas, surfistas bobos, gente que malha muito de roupa de banho, difícil dizer se estamos assistindo a um filme ou uma propaganda às vezes, mas Gluck não apenas enxerga a ironia disso tudo como também a usa e muito, por isso todos são bastante rasos, alguns infantilizados, e qualquer sinal de uma emoção profunda é rapidamente descartado - quando Ben fala sobre sua mãe que morreu ou os votos de casamento extremamente básicos das duas mulheres. É um filme que precisa girar ao redor de cenas significativas em sua trama, ou seja, os embates e seduções entre Bea e Ben, então tudo no meio se dá das formas mais cômicas e rasas para que logo haja alguma interação importante entre o casal. Tudo isso pode parecer bastante esquecível, genérico até, e é assim que a trilha sonora, a escolha de uma música específica, consegue criar cenas memoráveis que fazem o filme um chiclete como foi em A Mentira com outro sucesso de Natasha Bedingfield. Mesmo se você nunca viu o filme, talvez já tenha visto por aí as cenas de Emma Stone cantando Pocketful of Sunshine e, inevitavelmente, acabou cantando a música por uma semana.


Unwritten pode não render uma cena tão boa e tão marcante quanto I Say a Little Prayer em O Casamento do Meu Melhor Amigo, mas é um grande ponto forte de Todos Menos Você, que entende seu lugar no tempo e sua proposta nada profunda, muito menos complexa. Mas, às vezes, o escapismo é tudo que precisamos, um bom momento no cinema, cantando aquele hit dos anos 2000, observando uma paixão que provavelmente não faria o menor sentido, não fosse o véu do cinema para transformar suas histórias em algo cativante o suficiente para a telona. A comédia romântica não foi salva, mas certamente podemos sentir o quanto precisamos que ela volte aos cinemas e pare de ser um subproduto do streaming. 


Filme assistido a convite da Sony Pictures

Todos Menos Você chega aos cinemas brasileiros em 25 de Janeiro de 2024


 

Nota da crítica:

3/5


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