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Entre Mulheres (2023) | Os anacronismos de ser mulher

Entre a fé e o desejo de ser livre, Sarah Polley cria uma comunidade presa no tempo que reflete as condições perduráveis de todas as mulheres



A princípio, Entre Mulheres parece retratar um passado muito distante de nós, até que alguns objetos e diálogos nos aproximem desse tempo e finalmente seja revelado que não estamos nem um pouco longe dessa época. Ao traçar essa realidade que se mistura com o tempo, o filme escancara problemáticas que seguem imutáveis na sociedade, afetando mulheres de todas as épocas, enquanto imagina quase como uma lenda histórica, uma reação contra as opressões. Para tecer tantos comentários e reflexões, Sarah Polley se vale de um texto forte, que não se deixa cair em banalidades, ainda que tenha uma boa carga dramática, e uma direção minimalista, que se importa primeiramente em olhar com atenção para essas mulheres e suas realidades individuais que formam um coletivo. Entre pontos e contrapontos debatidos pelas principais responsáveis pela decisão da colônia, nos tornamos ouvintes de diferentes visões sobre ameaças que, infelizmente, são extremamente presentes no mundo real, não importa quão perto da modernidade estejamos.


Ao afastar essas mulheres de uma sociedade moderna, o longa brinca com a nossa percepção de que tais violências e injustiças só poderiam fazer parte de um mundo retrógrado e remoto, quando na verdade, sabemos que ainda que mil anos, ou mil inovações tecnológicas, separassem essa história dos dias atuais, as mulheres ainda estariam sofrendo com os mesmos medos e inseguranças. Dessa forma, a escolha por deixar claro o ano dos acontecimentos (2010) reforça uma angústia de imaginar por quantos anos ainda um filme como este permanecerá atual. Não é necessário um julgamento de valor pelo estilo de vida dessas pessoas, ao optarem viver nessa colônia, pois todas as reflexões levantadas parecem se espelhar em qualquer modelo de sociedade existente, já que o conservadorismo e o patriarcado estão impregnados em - praticamente - todas as estruturas que conhecemos.



A câmera de Polley se preocupa em olhar com cuidado para essas mulheres, um olhar gentil que paira nelas em todas as escolhas do longa, inclusive na narração pela voz de uma menina ainda muito jovem, relatando tudo como uma história fantástica para uma futura mulher que nunca conhecerá essa antiga realidade. Já para os homens, pouca atenção visual é dada, com exceção de August e Melvin, as imagens dos outros são ou muito rápidas, impedindo que seus rostos sejam vistos, ou colocadas nas sombras, como nos momentos em que Klaus aparece, sempre de longe e no escuro. Da mesma forma, o filme se preocupa somente em ouvir essas mulheres e não em expor as violências que sofreram, explorando o tema com mais sensibilidade e cuidado, afastando a dor das imagens e aproximando intimamente pelos relatos. Os únicos momentos em que a câmera se demora e mostra claramente os rostos masculinos são nos closes dos meninos, filhos e irmãos daquelas mulheres, os homens em construção, fadados a uma formação por uma comunidade machista e violenta. Para eles, o filme busca um olhar de esperança, a chance de começar novamente, educando e abrindo novos horizontes. Se é preciso uma vila para criar uma criança, que seja pelas regras daquelas que sempre foram responsáveis por suas criações.


É quase uma lenda mesmo, de como as mulheres se cansaram de uma forma de mundo que as oprime e formaram sua própria sociedade, não excluindo os homens, mas apenas escolhendo levar aqueles que ainda podem ser criados longe do veneno que circula permanentemente em seus pais, avós e tios. Uma chance de criar novos meninos num lugar mais equalitário, onde todos tenham voz e direito a serem ouvidos. Essa utopia imaginada não se constrói em clichês ou frases de efeito vazias, mas sim pelas atuações fortes de Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley e todo elenco feminino, que leva com naturalidade o peso de tudo que suas personagens têm a dizer. Mesmo que sejam muitas, cada uma delas tem suas particularidades, numa diversidade de pensamentos e opiniões que dá profundidade a elas, aproximando de suas vidas e humanizando cada parte de um coletivo, diferente de como são vistas em sua comunidade. Ainda que seja muito possível discordar das ideias de uma ou de outra, somos colocados ali apenas como ouvintes, como August, apenas para escutar e tomar nota de um fato quase histórico.


Para uma revolução utópica como a que Entre Mulheres propõe, uma coragem de cinema seria necessária, a mesma que vemos no longa. Na história, em muitos momentos as mulheres se uniram para conquistarem mudanças sociais e ainda assim, para quem se vê sempre tendo que lutar pelos direitos sobre próprio corpo, o tempo continua sendo uma prisão que pouco muda.


Nota da crítica:

4,5/5






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