top of page

Fantasma Neon (2023)

Curta musical de Leonardo Martinelli dá o palco para um dos trabalhadores mais explorados atualmente, numa metrópole Brasileira cheia de cores, fantasias e sonhos partidos



Para falar de um assunto que permanece urgente ainda hoje, dois anos após o curta começar a rodar o mundo em festivais, Leonardo Martinelli transforma depoimentos reais de trabalhadores de delivery em uma dança colorida pela cidade grande. O tema forte, que vem com músicas e diálogos carregados das dores desses entregadores, é retratado ludicamente com cenas que parecem soltas como pequenos clipes musicais costurados que nem sempre trazem alguma lógica ao se unirem, mas se fazem compreender - e sentir - perfeitamente no conjunto. A jornada pouco linear de João (Dennis Pinheiro), passa por um combo de cultura brasileira das metrópoles, das danças aos cenários urbanos, substituindo o caos por espaços pouco ocupados, a escuridão por ruas bem iluminadas e jogando cores vivas no cenário cinza já habitual. A atuação sóbria de Dennis casa com o desânimo diário de um trabalhador constantemente esmagado pelos desejos e prioridades dos outros, do capital ou de seus clientes e da pessoa ignorada, invisível, que muitos nem olham no rosto.


Martinelli pincela em seus 20 minutos situações cotidianas que essas pessoas vivem, dando tempo para seus planos que mostram cada entregador individualmente. Esse destaque dado a cada um, mesmo que não digam nada durante a obra, caminha na intenção de humanizar esses trabalhadores e aproximar o espectador deles. O sentimento de ser um fantasma pode ser partilhado com tantos, ainda mais quando pensamos nas grandes cidades, e a ideia de trazer desejos, manifestações artísticas e pensamentos dessas pessoas, torna essa proximidade ainda mais efetiva. Existe muita vida em Fantasma Neon, que a arte coloca em tela, mas também um ar soturno e meio desconexo que vem de um vazio de seus personagens e desse sofrimento típico do sistema em que vivemos, que individualiza os problemas e coloca nas costas do trabalhador criar seu próprio destino, quando na realidade as chances desse final feliz chegar são ínfimas.


João e os demais que dançam com ele parecem ter essa aura deprimida, ainda que toda estética e composição das cenas traga alguma alegria. É uma ironia do contraste de sensações, como a máscara com um grande sorriso que o entregador usa enquanto além de abatido, ainda é pessimamente tratado por um cliente. Assim, o diretor remonta o clima típico de uma rede de fast food, ou de tudo que tentam nos vender, uma alegria pintada que tem por trás muita tristeza, pobreza, exploração e morte. Em pouco tempo, essa fantasia bonita embala uma realidade dura dos corres de uma classe que só aumenta no Brasil e que não vê seus direitos crescerem junto.


Nota da crítica:

4/5


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Vitrine Filmes

Fantasma Neon chega aos cinemas em 20 de Julho, acompanhando as sessões de Fogo Fátuo.


 


Comments


bottom of page