top of page

Fresh (2022) | A sátira dos maiores pesadelos femininos

Mimi Cave equilibra horror e humor para construir uma reflexão sobre o machismo na sociedade moderna



O machismo ronda a introdução de Fresh, no encontro de Noa (Daisy Edgar-Jones) com um típico otário que toda mulher solteira esbarra em aplicativos de namoro, no medo numa rua vazia e escura e nos homens que a olham no mercado. São pequenas e grandes atitudes extremamente reais que o longa retrata, situações tão possíveis, que as mulheres vivenciam constantemente que a sátira da diretora ao exagerar esses momentos na verdade até os aproxima mais da realidade. A frase ‘é engraçado porque é verdade’ se encaixa perfeitamente aqui, porque de fato, não é nada incomum conhecer um cara que destrate uma mulher por o rejeitar ou se sentir desesperadamente assustada ao ver a silhueta de um homem andando atrás de você na rua. Tudo isso, além de ambientar Noa nesse mundo que não trata bem as mulheres e que pode ser ainda pior se essa mulher for solteira e interessada em homens, a coloca numa situação de vulnerabilidade ideal para cair nos encantos do primeiro pretendente minimamente decente que cruza seu caminho.


É interessante como Mimi Cave escolhe introduzir seu filme por mais de 30 minutos até finalmente passar sua abertura, como se tudo que vimos antes fosse um retrato real do que pode acontecer para depois adentrarmos no filme, a partir do ponto em que Noa é capturada por Steve (Sebastian Stan) e vamos conhecer suas reais intenções. É óbvio que tudo anunciava o perigo da relação dos dois, mas ao se colocar no lugar da jovem solteira fica fácil entender todos os sinais que ela mesma ignorou e que fazem tantas mulheres serem vítimas fáceis de homens com péssimas intenções. Mas, ainda que o filme trate de algo tão pesado, o humor que Mimi Cave usa consegue equilibrar tudo.



O canibalismo que já foi mostrado por diferentes olhares no cinema nos últimos anos, tem uma roupagem nova em Fresh. Se Claire Denis o usou para mostrar um desejo incontrolável e Julia Ducournau aplicou numa metáfora sobre amadurecimento, Cave não o retrata de forma animalesca, não rasga a pele com os dentes, mas o trabalha também metaforicamente para escrachar as opressões de gênero. Não é de se espantar nem um pouco que a carne humana que se vende é apenas a das mulheres, nem que seja um gosto excêntrico de homens extremamente ricos. É um absurdo que infelizmente não é tão absurdo assim de imaginar, já que muitas vezes as situações que as mulheres vivem são muito mais surreais do que a ficção consegue exagerar.


Existe uma dualidade que ronda as coisas mais terríveis do longa. Steve é um vilão cômico, apesar de cometer atrocidades, carrega um charme, é carismático o suficiente para não o tornar um personagem extremamente repulsivo. Assim como as carnes, que parecem até apetitosas da forma como são filmadas, mesmo que saibamos sua origem. A diretora brinca com nossa percepção e até a manipula, principalmente pela forma que retrata a pele e a carne, em certos momentos ela mostra partes do corpo de Noa de um jeito atrativo, que não é sexual, mas que também incita algum desejo. Nas cenas em que a jovem come os pratos que Steve prepara existe essa mesma atração, pela forma em que corta a carne e a mastiga, tudo é filmado para que não pareça horrível ou nojento, mas sim algo que instiga, que parece saboroso. Não há nenhuma intenção de Cave em transformar sua obra em um terror gore, ela brinca com esses elementos de outra forma, não é pelo sangue ou pela violência explícita que o horror passa, mas pela ideia dos acontecimentos. Até por isso os cenários são limpos e bem organizados, totalmente diferente do que é esperado de um matadouro de mulheres. Toda violência de Steve com suas vítimas é em salas de cirurgia, estéreis, com anestesias e curativos, sem sangue jorrando, sem feridas abertas e cenas torturantes de sofrimento.



Os únicos momentos em que realmente há violência são quando Noa finalmente consegue seduzir o algoz e virar o jogo, castrando violentamente Steve. A partir disso, o sangue e a luta se tornam mais presentes. Quando todas as mulheres se unem para combater o homem, em algo parecido com À Prova de Morte (Tarantino, 2007), as cenas não se tornam algo forçado para enaltecer algum empoderamento pela união feminina, é apenas uma luta de sobrevivência de vítimas que se unem contra um mesmo predador. E ainda que siga várias lógicas clássicas do horror, felizmente não tem dó nenhuma de matar com vontade o vilão.


Fresh não se leva a sério e por isso consegue entregar uma experiência muito divertida, com uma direção que sabe o que mostrar e como mostrar para gerar sensações e reflexões interessantes. É provocativo e consegue fazer suas críticas sem soar vazio, mesmo que se apoie totalmente na modernidade para existir. Com tudo de ruim que há na jornada de ser mulher e passar apuros com homens, sempre vale a pena rir das próprias desgraças.


Nota da crítica:

4/5





Comentarios


bottom of page