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Crítica - Napoleão (2023)

Ridley Scott demonstra mais interesse pela guerra do que por seu personagem central, criando uma obra apática e distante, mais historiando períodos do que se preocupando com a imagem



Com uma cena de abertura forte, Ridley Scott filma uma Maria Antonieta cheia de ego, que caminha à guilhotina, e relaciona rapidamente sua decapitação à figura ainda tímida e misturada na multidão de Joaquin Phoenix, em poucos minutos, com praticamente nenhum diálogo, a única barreira aqui é estética, na lavagem da fotografia. Porém, ao iniciar realmente a história de Napoleão, o diretor parece se esquecer completamente de como usar o cinema, as imagens principalmente, para dizer algo. Recorrendo sempre à palavra, seja escrita, seja no que é dito ou no que é mostrado em jornais, Scott se afasta cada vez mais de seu protagonista, e parece não se importar muito com essa figura, não nutre nenhum sentimento forte por ele, não o pensa uma terrível peça histórica, nem um grande articulador de guerra, apenas o vê como um capítulo de um livro, um semestre de aulas, uma página da wikipédia. São fatos, feitos, uma coleção de acontecimentos históricos sem nenhum interesse em realmente estabelecer esse homem como algo grandioso, para o bem ou para o mal. Sua infantilidade e mediocridade se dá pincelada em momentos, muito apoiada na potência de Phoenix, que certamente faria muito mais se pudesse, ou nas matérias que apontam as traições de suas esposas, mas é basicamente no que é dito que moram as características, não há uma forma particularmente marcante que Scott filma Napoleão, ele se mantém muito mais preocupado com a feitura do filme, identificando cada período, lugar e acontecimento, relatando fato após fato, sem nunca conseguir construir alguma emoção ou conexão. É, porém, nas cenas de batalha que o cineasta mostra alguma vontade, sendo mais criativo, não nos poupando da violência e do sangue, por vezes transformando as mortes em algo poético, mas finalmente, criando algo imageticamente - destaco aqui a batalha no gelo, talvez a melhor cena do filme. No mais, entre em drama romântico apoiado em cartas e a ascensão e queda de um homem morno, Napoleão é um filme que tenta ser grandioso, mas não tem paixão para isso. 


Há muito o que se pensar sobre o que pode ser diferente na versão completa do diretor, que não passa no momento nos cinemas e só será disponibilizada ao público depois, no streaming. É certo que o diretor britânico já provou fazer um melhor trabalho em seu próprio corte de Cruzada (2005), mas o que parece possível de melhorar em Napoleão são mais desenvolvimentos narrativos e da montagem do que resolver os maiores problemas de seu longa. Ocorre que, nessa necessidade de criar uma apostila de história com muitos capítulos de anos e lugares diferentes, a versão reduzida dos cinemas se torna um tanto apressada no começo, passando por muitos cortes que dão a impressão de que muito foi retirado, provavelmente no relacionamento do líder militar com Josephine (Vanessa Kirby) e em sua própria ascensão na carreira até o lugar de imperador. Me parece difícil que nessas quase duas horas adicionais Scott consiga aprofundar sua relação com Bonaparte, mude sua forma de o filmar, acrescente alguma paixão em suas atitudes ou mude totalmente sua fotografia, todos elementos que colaboram na apatia geral desse longa. 



O que mais me parece decepcionante aqui é a falta de interesse do construir pela imagem. Napoleão é traído e sua humilhação vem por meio dos jornais, o imperador diz amar a França mas isso se dá quase que somente em suas palavras, a paixão que diz ter por Josephine se dá em suas cartas, fisicamente entre eles tudo é distante e frio, até nas últimas palavras de Bonaparte, Scott recorre ao texto, optando por não filmar uma cena de segundos em que Phoenix poderia dizer as três palavras finais do imperador e as coloca escritas, na tela preta. Essa obsessão por jogar números na tela e historiar tudo de forma tão apática afasta tanto o espectador do longa que a falta de paixão do diretor se torna a nossa própria. Ao final ele parece tentar dizer algo, joga dados na tela, quantos soldados morreram nas batalhas que Napoleão liderou. Se ele quis dizer nesse momento que esse homem foi uma figura tão terrível, que por sua sede de poder levou milhões à morte, por que não o fez propriamente em seu filme, em tela, nas imagens? A obra se mantém tão distante, e por mais que o personagem tenha um ou outro traço de personalidade - a infantilidade da criança mimada em embate com a liderança estrategista - é tudo muito contido e indiferente, não vemos realmente esse homem desesperado para vencer deixando morrer quem for no caminho, é só o básico e costumeiro da guerra. Apenas mais próximo do fim existem lampejos disso, na famosa batalha que o derrotou, mas é interessante que Scott filme em poucos minutos, com muito mais inspiração, um general britânico, do que seu próprio protagonista. 


Não existe grandiosidade na pessoa de Napoleão - essa só vemos nas cenas de guerra que podem sim, ser grandiosas, mas nem sempre numa ligação lógica ao líder e sim por algum fascínio do próprio diretor com a tragédia em si - nem mediocridade, apenas traços simples que contam sua história. Para Josephine ocorre o mesmo, impossível de compreender o que aquela coitada faz presa em uma mansão no meio do nada, o que a motiva, o que ela sente, até sua morte lhe é tirada imageticamente, restando que a contem, em palavras, para o homem que tanto a amou, pelo que ele diz. Se é possível que toda essa apatia que tanto afasta e torna o filme, cruamente dizendo, sem graça, se modifique na versão de 4 horas do diretor, só saberemos quando esta for lançada. Por agora, fica a decepção que uma peça cinematográfica que quer ser grandiosa esqueça dos maiores poderes do cinema para contar sua história, restando aos lapsos de poucas cenas alguma empolgação. 


 

Nota da crítica:

2,5/5




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