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O Assassino (2023)

Fincher retorna com thriller de direção tão meticulosa quanto seu protagonista, construindo na tensão um constante medo da perda do controle



É certamente no thriller que David Fincher sempre brilhou, perdendo um tanto a mão no recente drama Mank (2020) mas com uma boa lista de grandes feitos cinematográficos anteriores. Agora, com mais um projeto com a Netflix, o diretor encontra o casamento perfeito de sua direção e proposta com um protagonista excelente para isso, o matador de Michael Fassbender se encaixa tão bem no projeto quanto Ben Affleck foi ideal para o projeto de Garota Exemplar (2014). A apresentação desse homem é de um trabalhador metódico, calculista, atento a todo e qualquer detalhe, parecendo incapaz de cometer um erro. Fassbender se encaixa nas engrenagens dessa direção meticulosa para montar uma aparência de que tudo está sob seu controle, para que em seguida Fincher quebre essa ilusão e o erro aconteça. Desde o começo fica claro que essa é uma história sobre trabalho, uma ocupação incomum, mas com todas as questões mais burocráticas que qualquer emprego poderia ter. O protagonista reflete sobre suas obrigações, sobre o tédio de suas atividades, como as demandas chegam e são resolvidas como se fossem papeladas a serem despachadas e como muitas vezes ele sente falta de poder ser mais criativo em suas execuções. Sua jornada no primeiro capítulo não poderia ser mais similar a uma rotina de escritório para pessoas extremamente organizadas, com tudo bastante cronometrado, um almoço barato e meio sem graça no intervalo, os fones de ouvido para ajudar na concentração e um chefe no telefone que não faz mais do que cobrar resultados na hora certa. A diferença está nas consequências dos erros, e o tiro incorreto de Fassbender era a última coisa que poderíamos esperar após toda a confiança construída por Fincher, provavelmente o que o próprio assassino jamais esperou.


Ainda que essa falta de controle momentânea o abale, mas nunca afete o formalismo da direção, o homem segue seus protocolos normalmente, operando como uma máquina que não para sua rota para sentir nada. Quando a narração de Fassbender diz pra não sentir empatia, ele diz para si mesmo, mas é como se fosse o próprio diretor avisando seus espectadores que não há empatia aqui, deixe seus sentimentos do lado de fora. Aos poucos o longa dá frestas de emoções a esse homem, mas sempre muito controladas, seu medo e insegurança fazem parte de toda a tensão muito bem construída no longa, ao mesmo tempo em que o protagonista desconfia de tudo, a sensação constante da atmosfera da obra é de que algo vai acontecer e quebrar esse domínio meticuloso dos acontecimentos. Enquanto a voz soa como um mantra, se lembrando de sempre antecipar o que vem a seguir e nunca agir na impulsividade, cresce uma sensação de que é exatamente algo assim que virá, mas é sempre com nenhum aviso que realmente algo sai do previsto, nunca na antecipação da tensão e dos passos calculados. Ainda que demonstre alguma insegurança, provando não ser um robô perfeito que não é capaz de errar, o assassino de Fassbender caminha com frieza e tranquilidade, com a confiança de quem vai resolver as coisas à sua maneira, de acordo com o plano, antecipando quaisquer imprevistos.



Essa frieza nos impede de sentir qualquer coisa por aqueles que morrem ao cruzar o caminho desse homem. Fincher filma os assassinatos removendo qualquer fator emocional, mesmo os de pessoas inocentes. O taxista que rapidamente morre, retratado apenas como um meio para as informações necessárias, deixado para trás como uma peça dentro do carro ou a secretária do chefe, que poderia provocar alguma empatia, mas o mantra do matador prevalece, o pescoço se quebra num piscar de olhos, o corpo é deixado como um tapete no chão, não há o que sentir, apenas um objetivo a concluir. Nem mesmo ao ver sua mulher no hospital esse homem demonstra algum carinho com ela, sua resposta emocional é na solução prática, na vingança protocolar que ao ser concluída é deixada para trás como quem bate o ponto no final do dia e volta para casa, onde o trabalho não entra se tudo sair como planejado. Aquela criatividade que tanto fazia falta a ele nos trabalhos mais parados retorna quando ele assume uma tarefa por si mesmo, mas nem por isso deixa de ser controlador e minucioso, na verdade essas características se intensificam e são a alma da mise-en-scène de O Assassino.


Foi muito esperado para o público brasileiro ver Sophie Charlotte em um filme como esse, e apesar de sua participação ser muito breve, sua personagem é quem move a trama, quem motiva a vingança, funcionando tão bem quanto as outras peças aqui, sem tempo de tela ou diálogos suficientes para render maiores análises. É que muitas pessoas aqui são passageiras, quase todas alvos de Fassbender, que ele cruza o caminho e segue em frente até seu próximo objetivo. Tilda Swinton tem uma participação interessante, sendo mencionada primeiramente por sua aparência que qualquer pessoa associa rapidamente a ela mesmo sem ter visto seu nome nos créditos, mas também por sua aceitação do destino final que é, na verdade, uma manipulação na busca por ganhar tempo. Sua presença é tão forte que o que já vimos de vulnerabilidade do protagonista é suficiente para aumentar a tensão de que ali, naquele momento, o controle pode escapar de suas mãos novamente. Assim como os únicos momentos de luta corporal com um oponente muito maior transmitem a mesma insegurança, será que o trabalhador sistemático é capaz de vencer fisicamente, num campo que é impossível de ser planejado? Fassbender pode não ser John Wick, mas é tão obstinado quanto em sua vingança.


Talvez seja um desfecho um tanto morno, mas faz sentido que seja, já que perto das seis da tarde todo mundo só quer saber de terminar logo tudo que precisa ser feito para finalmente aproveitar algum tempo livre em casa, a sorte desse protagonista é que ele ainda conseguiu eliminar seu chefe para sempre nesse caminho. Mais sorte ainda a de Fassbender que trabalhou num encaixe perfeito em mais um acerto de Fincher.


Filme assistido a convite da O2 Play e Netflix


O Assassino chega aos cinemas em 26 de Outubro e em Novembro na plataforma de streaming.


 

Nota da crítica:

4/5




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