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O Urso do Pó Branco (2023) | Uma trilha de ironias

Elizabeth Banks faz a união do sangue, violência e drogas com os clichês das comédias oitentistas em um filme que só quer rir de si mesmo



No começo de O Urso do Pó Branco parece que o filme não vai engatar além de sua premissa básica, uma estética simples e a conversa direta com os anos 80. Mas, em algum tempo, para quem conseguir comprar a jornada, pode se tornar mais interessante e divertido. Entre a forma que filma, a trilha sonora e os textos, tudo que Elizabeth Banks faz parece uma ironia com seu próprio filme e todos os gêneros e obras que conversam ali. Se no começo tudo é um filme dos anos 80, com crianças espertinhas vivendo aventuras longe dos adultos, vilões e policiais, cada personagem é uma caricatura que ironiza suas referências com toda uma encenação que corrobora que a única pretensão do longa é rir de tudo isso. Brincando com comédia, aventura, policial, melodrama e até horror, é um trabalho que não se importa nem um pouco com seus personagens, com seus sentimentos, relações ou vidas, se propõe apenas a transitar por uma série de exageros, nos acontecimentos e no estilo, para entreter. Conforme os absurdos se desenrolam, fica mais fácil embarcar na viagem, seja pelas pernas arrancadas ou pelas nuvens de cocaína, e se desprender totalmente de qualquer seriedade pode ser a única forma de encarar positivamente o filme de Banks.


Começando pelo texto, tudo na trama é extremamente básico e batido. Existem diálogos tão vazios que parecem gerados por uma inteligência artificial que leu muitos roteiros de filmes medianos. Mas isso está longe de ser um problema, já que o longa se pauta justamente nessa ironia, é seu propósito rir desses clichês vazios e não ir além disso. Já se declara dessa forma nos primeiros minutos, quando traz um fato na tela atrelado à sua fonte, a Wikipedia. É um humor que pode ser bobo demais em alguns momentos e a depender de quem o recebe. Não é grandioso, nem genial, mas diverte sem pedir muito. Não só nos diálogos, mas também em toda a composição, que se torna uma ironia - não muito escrachada, que pode até se camuflar - quando sobe uma trilha sonora ou movimenta a câmera de formas que suas cenas se tornam caricaturas de lembranças do cinema dos anos 80 e 90.



Talvez a maior força do filme esteja na violência, de membros partidos e corpos dilacerados, que contrasta com a atmosfera cômica e simplista. Num momento estamos vendo Margo Martindale ser uma personagem bem rasa, focada em um flerte desinteressante com a estrela de Modern Family Jesse Tyler Ferguson e no outro o homem está pendurado sangrando enquanto a ursa destrói seu corpo. A energia meio sessão da tarde do filme é quebrada sempre que o animal resolve atacar alguém e a encenação se transforma em um filme de horror, que ainda que carregue o humor de algum exagero e uma ursa completamente drogada, provoca sensações corporais também. A cena em que o rosto da guarda florestal é arrastada no asfalto é um bom exemplo de como Banks consegue contrapor o besteirol com uma tensão típica do horror. Fica entre a lógica do absurdo e algum controle que impede que as cenas se tornem extremamente fantasiosas, jogando com cabeças explodindo, pernas arrancadas e corpos sendo descartados, mas sem ultrapassar alguns limites. Dessa forma, há sim o sangue e a violência, mas muito mais como uma forma de agregar humor com o gênero do terror do que extrapolar a realidade. Assim como a ursa tem expressões faciais e corporais bem marcadas e caricatas, mas carrega um CGI que busca se aproximar do real, há algum exagero, obviamente, mas se atrela a uma figura verdadeira de um animal.


Nesse sentido, a ursa se torna realmente a protagonista e maior destaque do filme, já que todos os outros parecem elementos facilmente substituídos - talvez com exceção da sempre excelente Martindale. Com grandes figuras no elenco, como Keri Russell, Ray Liotta e outros já citados, o longa de Banks os usa como ferramentas de uma ironia sem profundidade que não aproveita seus talentos, o que faz parte dessa proposta despretensiosa. Russell é uma mãe em busca da filha, sem grandes momentos ou destaques, e que poderia ser interpretada por qualquer outra atriz, já que o humor joga muito mais com a forma que todas essas peças se unem em algo tão cafona, do que depende da atuação de cada um. O ponto do elenco parece ser muito mais uma ativação de nossa memória de cada uma das personalidades, que pode passar batido para um público mais jovem e/ou menos inteirado.


A verdade é que independente da relação que O Urso do Pó Branco pode criar com o espectador, seja de embarcar nessa piada sem pretensão ou de achar tudo extremamente batido e mal feito, Banks realmente não parece se importar com nada além de rir de tudo aquilo, mesmo que só ela ache graça. É um filme até que controlado e que não pretende muito e por isso mesmo, não atinge grandes coisas. Para quem quiser se divertir e comprar a ideia, pode se divertir muito e até se empolgar bastante com as cenas mais violentas, como eu. Mas para quem não entrar nessa, pode ser o filme mais idiota e esquecível possível. De qualquer forma, quem não se arrisca muito, não tem muitas chances de ser lembrado, e a falta de ambição de Banks aqui pode ter deixado sua obra marcada apenas como um entretenimento que caberia bem na prateleira de uma locadora e nada muito além disso.


Nota da crítica:

3/5




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