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Os Delinquentes (2023)

A alternativa de Rodrigo Moreno ao clássico filme de assalto à banco, busca uma fuga da prisão do capitalismo em um encontro com a liberdade de novas perspectivas



Você prefere viver mais 20 anos trabalhando no mesmo emprego monótono, no mesmo escritório, com as mesmas pessoas, ou passar três anos na cadeia e depois ser livre para sempre? É essa a pergunta que Morán (Daniel Elías) faz ao colega Román (Esteban Bigliardi) para explicar seu plano simples de um assalto ao banco em que trabalham. O crime que ocorre sem nenhum alarde não busca fazer fortunas, apenas tirar o essencial para que ambos vivam com o mesmo salário, só que sem serem obrigados a trabalhar. O filme se divide em duas partes para desenrolar essa história, leva seu tempo, sem pressa, estamos falando aqui de uma fuga do capitalismo, não é mesmo? É assim que esses dois personagens, jogados no mesmo destino por plano de um deles, mas pelo acaso em muitos aspectos, vivem vidas paralelas e experiências diferentes, ainda que unidos por um mesmo segredo, não tão secreto assim. O interessante a se acompanhar aqui é a forma como ambos encaram suas realidades, Morán que escolhe ser preso para depois viver a liberdade, e tudo que ele encontra no meio desse caminho, e Román, que é lançado nessa ideia e precisa encarar tudo na outra prisão, a do emprego e de sua vida comum.


Durante a primeira parte o longa trabalha muito mais os espaços fechados, do começo do plano até a prisão de Morán, que leva seu cúmplice a esconder o dinheiro no meio da natureza. Román segura as pontas no banco, mesmo com a suspeita de todos, batendo ponto todos os dias há 17 anos, sem parar. A ideia de viver com aquele dinheiro sem trabalhar nunca havia passado por sua cabeça, acostumado com a rotina, o trabalho sistemático, sua casa e sua namorada. Não era ele o questionador, quem queria fugir daquilo tudo, e a proposta lhe é apresentada do nada, o jogando nessa aventura. É só quando o filme vira para a segunda parte que as consequências desse roubo afetam realmente sua vida, o mostrando novos horizontes quando vai até o local indicado pelo colega para esconder o dinheiro e, por acaso, cruza com pessoas com nomes tão parecidos como o dele e de Morán são. Ainda que um deles tenha planejado o acontecimento que começa a mudar suas vidas, nenhum deles poderia prever o que estava por vir.



No outro lado, Morán vive seus dias na cadeia e precisa se adequar à vida nessa nova prisão, que inclusive faz uma breve crítica sobre o mundo moderno dos celulares e redes sociais, coisas que nunca parecem existir na narrativa, já que os personagens no banco parecem estar numa realidade do passado, de décadas atrás. Tudo que acontece entre o roubo e a prisão, já muda um tanto a visão desse homem, mas certamente os anos que passa na clausura são definitivos para a criação de uma nova perspectiva. Ambos são afetados por tudo que acontece na segunda parte da narrativa, que busca planos mais abertos para mostrar a vida na pequena cidade, na natureza, onde conhecem e se apaixonam por Norma (Margarita Molfino), observam o estilo de vida dela e dos amigos, e vivem o desenrolar do crime em suas vidas. Tudo abre mais portas para que esses homens encontrem novas alternativas para viver, porém ambos são atingidos de formas diferentes.


Se Morán já queria uma vida modesta, com apenas o dinheiro para sobreviver tranquilamente, longe do emprego, seus encontros e vivências após o crime são definitivos para o mostrar que a liberdade desse sistema pode estar nas coisas mais simples, e ele mesmo se liberta, sem a necessidade do dinheiro. Já Román, é atingido pelos acasos de outras maneiras, mas não parece se encaixar nessa nova perspectiva, se adequando mais à vida na cidade grande, no mesmo apartamento, com a mesma mulher, e acaba sempre retornando ao mesmo ciclo. Não é difícil acreditar que ainda que as novas perspectivas lhe tenham sido apresentadas e o dinheiro pudesse ficar com ele, Román voltaria até a trabalhar no mesmo banco, seguindo por mais 20 anos batendo ponto.


No contraste da prisão do capitalismo que fecha os homens em suas realidades impostas e a liberdade aberta de ter como escolher novos caminhos, cada um só consegue seguir a estrada em que mais se encaixa, e assim, Rodrigo Moreno individualiza sua obra e os mantém separados imageticamente durante toda a duração, mesmo quando dividem as cenas, para desassociar suas rotas de vez ao final.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria, Mubi e Vitrine Filmes

Os Delinquentes chega aos cinemas em 26 de Outubro e em breve na plataforma de streaming

 

Nota da crítica:

3,5/5





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