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Rio Doce (2023) | Contrastes de identidades

A estreia de Fellipe Fernandes na direção de longas debate os contrastes de classe no Brasil com ideias muito familiares



O cinema brasileiro tem cada vez mais usado um naturalismo para conduzir suas obras, seja no aproveitamento dos cenários urbanos e seus acasos ou no uso de atores com pouca ou nenhuma experiência prévia para compor personagens mais autênticos. Nas obras mais recentes do cinema mineiro e no premiado Mato Seco em Chamas (Joana Pimenta, Adirley Queirós, 2022) isso também é intensificado pela mistura da ficção com o documentário. Esses artifícios, que têm sido muito bem empregados no nosso cinema, nos aproximam da realidade do país, das pessoas, e ajudam a aprofundar críticas sociais, conhecendo as problemáticas da população pelos olhos e pela voz daqueles que as vivem diariamente. É algo que Coutinho já fazia há muito tempo, olhar para as pessoas, ouvir elas e o que elas têm a dizer. Em Rio Doce, porém, a encenação é toda pautada na ficção - ainda que seja clara a falta de experiência de alguns atores - e são os cenários que trazem esse naturalismo, quando em muitos momentos os espaços urbanos parecem a realidade não encenada ao fundo com personagens ficcionais trabalhando em primeiro plano. Fernandes faz um filme fechadinho em suas críticas e história, mas acaba trazendo muitas coisas que já vimos antes no cinema nacional, tanto em forma quanto em conteúdo.


Para citar um exemplo bastante específico, existe algo muito similar no longa com as obras de Kleber de Mendonça Filho, diretor com quem Fernandes trabalhou junto em Aquarius e Bacurau, não apenas por alguns atores que podemos reconhecer, mas também pela crítica social entre classes. É algo que KMF já fez muito, colocando a classe média de Pernambuco, que se pensa elucidada politicamente, em conflitos sociais com a vizinhança, trabalhadores próximos e afins. Assim, a história de Tiago (Okado do Canal), um homem trabalhador da periferia, e o choque de realidades ao descobrir a nova família, predominantemente branca e com condições financeiras muito melhores que a sua, é interessantíssima, mas não vai para caminhos nunca explorados, trabalha num território já muito conhecido e talvez perca um tanto por não arriscar ir além em suas ideias. Entretanto, é justamente a direção mais controlada de Fernandes que consegue tirar o melhor de seus atores. Ainda que seja visível a dificuldade em alguns momentos, o diretor é capaz de extrair cenas muito genuínas e naturais.



O ponto mais interessante do filme é justamente o conflito familiar, tendo seu auge na cena do almoço em que a conexão de Tiago com as irmãs é extremamente falha, carregada de julgamentos por um lado e pela total falta de entrosamento por outros. A exceção que faz a sequência brilhar é a relação entre ele e a mulher que trabalha cuidando dos filhos da irmã. Essa identificação que empolga o personagem, por ter encontrado algo familiar que o faça sentir normal numa mesa de uma classe média cheia de regalias e aparências, exalta o abismo social que separa os irmãos, de famílias totalmente distintas, pautados em valores quase opostos. Fatos que também são muito bem pontuados visualmente nas casas de cada um deles, seja pela estrutura, decoração, ou pelas muitas caixas de lojas caras recebidas pela família até pouco desconhecida.


Mas, o foco do longa parece estar muito mais na masculinidade e na paternidade, da recém encontrada por Tiago, após a morte do pai que nunca conheceu, e do homem com sua filha, que não vive com ele. Através desses caminhos com os novos parentes, Tiago começa a se abrir emocionalmente, se enxergando dividido entre dois lugares de busca por pertencimento. Ao longo das cenas o diretor faz questão de nos aproximar com closes que isolam o protagonista e adentram seu psicológico, para aos poucos dar mais espaço para ouvirmos seus pensamentos e sentimentos. O filme faz questão de destacar a complexidade das emoções, por vezes até flertando com o horror para intensificar as confusões internas de Tiago.


Assim, Rio Doce faz um bom trabalho com as ideias propostas e lapida bem as ferramentas que tem para dizer algo que não se aventura, é um filme competente mas que não tem uma força própria, como se ainda faltasse encontrar sua voz, ou sua autoria, para realizar algo mais autêntico e potente. Fica a curiosidade para acompanhar os próximos trabalhos de Fernandes, que já mostra uma boa sensibilidade no olhar para seus personagens e o mundo que os cerca.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Vitrine Filmes

Rio Doce chega aos cinemas em 20 de Abril.


Nota da crítica:

3/5




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