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Run Sweetheart Run — Os horrores de ser mulher

Shana Feste deixa a sutileza de lado para escrachar críticas sociais em um filme divertido e acelerado


Sombras do Passado Resurrection

Quando pensamos no cinema de horror ao longo dos anos é fácil lembrar de muitas cenas de mortes sangrentas e violentas com mulheres jovens e bonitas, principalmente no slasher. Assim, é provocativo quando Shana Feste faz questão de manter o espectador do outro lado da porta, longe da violência que Cherie (Ella Balinska) está sofrendo pelas mãos do homem que até então, parecia perfeito. Apesar de nada ser sutil no longa, a diretora sustenta bem todas suas escolhas em uma unidade verossímil que consegue refletir sobre esse fetichismo do cinema de horror enquanto faz suas críticas sociais sem pesar a mão.

A figura de Ethan (Johan Philip Asbæk) como o homem baseado em aparências, rico, branco e gentil é a perfeita alegoria para toda uma sociedade patriarcal de homens que comandam o mundo e detém o poder, personificada em um ser sobrenatural, um monstro bíblico que fareja o sangue de mulheres enquanto o mundo ao seu redor não se importa nem um pouco com o que acontece com elas. Tudo é extremamente caricato, sem medo de brincar com os elementos para fazer um comentário muito claro. Até quando vai falar do próprio cinema, Feste coloca na tela um dos maiores clássicos do slasher para não restarem dúvidas do que está sendo feito aqui. Ainda que as câmeras sejam propositalmente desviadas enquanto Cherie é agredida por Ethan, a clássica jornada da final girl permanece, mas agora entregando o poder físico, intelectual e o de controlar o olhar, nas mãos da mulher.

O filme vai construindo um caminho que se torna mais e mais fantasioso, enquanto acompanhamos em um ritmo frenético a jornada exaustiva de sobrevivência de Cherie. Os paralelos óbvios entre violências sofridas todos os dias por mulheres em uma sociedade que não ampara suas vítimas e salva seus predadores não se torna pesada em nenhum momento, fugindo do caminho que muitos filmes estão seguindo para propor críticas nos últimos anos, de criar discursos vazios que mais parecem debates do twitter. Aqui, o texto e as alegorias pincelam os comentários, mas a jornada da final girl prende e diverte, amarrando todas as pontas sem deixar críticas perdidas em diálogos sem sentido.

Para comentar sobre o próprio cinema, o longa não usa apenas o slasher, o expondo e brincando com o controle do olhar, mas também usa os gêneros para jogar com a nossa percepção. No começo, a relação entre Ethan e Cherie é uma piada com o clássico filme romântico — mais uma vez sem nenhuma sutileza — da forma como Feste filma o casal se apaixonando, aos cenários e iluminação, tudo é feito para criar um romance típico de cinema enquanto claramente debocha da situação, já prevendo que tudo isso em breve irá ruir. Dessa forma, a diretora consegue não apenas comentar sobre como homens aparentemente perfeitos podem muito bem serem abusadores, como também traz o tema com leveza, já que tudo conversa com seu universo comicamente absurdo. O fato de se opor a expor as violências sofridas por Cherie também influencia para que tudo de mais horrível que o discurso do filme quer debater não se torne difícil de digerir. Obviamente, existem muitas formas de fazer cinema, e aqui Feste escolhe não usar o choque, mas opta por escancarar o quanto tudo é tão absurdo na realidade, assumindo essa loucura em um mundo onde é perfeitamente plausível vencer o maior monstro de todos com a luz do sol e um grupo de mulheres bem treinadas.

Mesmo que Cherie, uma mulher negra, que cria sua filha sozinha, vença o grande vilão do patriarcado, o filme não é nem um pouco pretensioso, não se preocupa em carregar uma mensagem de empoderamento clichê e batida ao final. Assim, entrega o poder do olhar nas mãos dessa mulher, dando o controle para que ela mostre para onde devemos olhar, transformando esse aparato que sempre esteve apontado para o nosso sofrimento numa exposição da derrota do inimigo e a merecida vitória da heroína.


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