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Toc Toc Toc: Ecos do Além (2023)

De forma lúdica, o horror de Samuel Bodin brinca com medos infantis, jogos de sombras e uma fantasia bem objetiva que não se apega nos significados



Em tempos de um cinema de terror que se volta muito para uma suposta complexidade nos dramas individuais, traumas e uma necessidade grande de encontrar significado nas coisas, é sempre agradável se deparar com filmes que abracem mais a fantasia, sem grandes pretensões profundas (que quase sempre não passam de pretensões). Toc Toc Toc: Ecos do Além, joga diretamente, não se importa em gastar algum tempo se explicando em uma introdução, já somos levados para a vida bastante dura do menino Peter (Woody Norman) que lembra animações como Coraline (Henry Selick, 2009), se pautando numa dinâmica de medos infantis. A família estranha, a casa assustadora, as sombras aterrorizantes e os barulhos na parede escutados somente na hora de dormir. Toda a ambientação e caracterização dos personagens parece mesmo um conto para crianças com aquele toque sombrio de Tim Burton e Selick dos anos 90 até 2000 e pouco. As atuações dos pais não são boas, mas até se disfarçam nesse contexto caricato, porém é com Peter e sua relação com a casa e com a irmã que o filme realmente tem seus melhores feitos. Toda a fantasia eleva o longa e torna um tanto decepcionante quando resolve realmente mostrar a figura da irmã, mas deixa tudo escuro demais para enxergar, como se o diretor ficasse no meio do caminho entre segurar essa imagem para criar um mistério e expor realmente abraçando sua imaginação, o que parece um receio com seus efeitos visuais, já que o cinema atual tem cada vez mais aversão a um cgi que não busque o realismo.


É interessante que ao brincar com a percepção do menino, o longa coloca o espectador nesse lugar mais infantil também. O papel de parede que parece se mover no escuro, a ambiguidade dos pais que parecem psicopatas e o medo que se cria por não mostrar quem está dentro das paredes e mesmo assim, estabelecer uma relação de dúvida, são coisas que fazem tanto sentido na cabeça de uma criança mas são facilmente racionalizadas com alguma experiência, e o resultado ainda é uma fantasia boa de se abraçar. Não há nada mais saído de um conto para assustar crianças do que uma história sobre pais malvados que aprisionam uma irmã que nasceu diferente. Assim, Bodin aproveita o visual para tornar a narrativa ainda mais imaginativa, mesmo que tenha seus clichês e problemas, é na fantasia que ele ganha. As sombras dos pais engolem a figura do menino, vários elementos parecem animações inseridas digitalmente e todo jogo de luz vai de encontro com o medo de um garoto de 8 anos. Por isso, quando a irmã aparece, não seria necessário realmente vermos seu rosto, pois tudo combinaria perfeitamente com essa construção.



É o ponto em que o longa mais erra, pois torna tudo escuro demais, não no apagar das luzes que monta suspense e medo, mas aquele que faz a gente apertar os olhos para visualizar as cenas, como é de costume em obras que tentam esconder o cgi que não ficou dentro das expectativas. Até expor o rosto dela, por mais estranho que pudesse parecer, seria uma alternativa melhor, já que tudo é fantasioso e não precisaria de forma alguma buscar um realismo ou ser um efeito extremamente bem feito. Talvez seja uma falta de coragem aqui, de escolher um caminho ou o outro mais abertamente, e que incomoda em muitas cenas que são difíceis de enxergar. É curioso porque no restante, Bodin parece confiar em sua narrativa o bastante para não se importar em dar grandes significados e justificativas, tudo é porque é, não importa de onde veio e nem para onde vai, só importa o que acontece agora em tela, o horror desse momento que vai permanecer. Não há sentimentalismo, drama ou um grande aprofundamento em questões internas. Só há o pavor de um menino nessa figura misteriosa e fantástica que move o horror.


Mesmo que o final possa trair um pouco essas ideias do todo e tentar explicar demais algumas coisas, há um ar sombrio que faz com que o discurso seja mais facilmente aceito, como um recurso psicológico que também vai funcionar nessa esfera infantil, do medo do que há embaixo da cama, dentro do armário, no escuro das noites. É um encerramento abrupto que pretende deixar essa assombração viva, seja como última cartada para trazer o medo, seja para capitalizar numa sequência no futuro. Independente de como for, ainda vejo como uma boa surpresa um horror que permite a imaginação nos dias de hoje.


 

Nota da crítica:

3,5/5





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