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Um Pouco de Mim, Um Pouco de Nós (2023)

Documentário de André Bushatsky busca um paralelo entre as histórias de refugiados desde o holocauto até a ascensão da extrema direita nos tempos atuais



Parece didático demais quando Bushatsky inicia seu filme explicando tanto sobre o holocausto, seja conversando com uma mulher nas ruas da Alemanha, ou pelos depoimentos dos sobreviventes que se refugiaram no Brasil e contam desde os primeiros sinais de que algo estava errado. Considerando que a essa altura do mundo, já vimos inúmeros filmes sobre o tema, ficcionais ou documentais, imaginasse que um filme atual seria mais objetivo nesses pontos, mas, esse é certamente o menor dos problemas de Um Pouco de Mim, Um Pouco de Nós. Na verdade, os depoimentos dos já muito idosos sobreviventes que fizeram suas vidas no Brasil, são a melhor parte do filme, certamente a mais interessante e infelizmente pouco explorada, que faz os passeios do diretor com a mulher entre monumentos e lugares importantes na história da segunda guerra mundial, um city tour bastante deslocado no conjunto. Além disso, para um longa que só tem um pouco mais de uma hora, as mudanças de foco na narrativa declaram certa desorganização de uma obra que ou quer falar sobre tudo ou não sabe bem o que quer dizer. Tudo isso se soma às falhas de Bushatsky de tentar se inserir no documentário, tornando seu filme bastante amador, o que é curioso já que o diretor já tem alguns trabalhos no currículo, dos quais não posso opinar. As boas intenções do documentário são claras, porém o resultado deixa a desejar e não consegue construir uma proposta que se sustente.


Ao entrar nesse filme e observar seu título, podemos pensar que os esforços de Bushatsky de se inserir na frente das câmeras culminariam em sua própria história sendo contada, o que nunca acontece. É claro que ser um bom documentarista que consegue ao mesmo tempo tirar bastante de seus entrevistados e ainda ser um bom objeto dentro de seu próprio filme é um feito para poucos, quase ninguém pode ser Coutinho e por isso tantos tomam seu lugar na outra ponta, deixando o espaço na tela para seus personagens apenas. Mas o que incomoda em Um Pouco de Mim, Um Pouco de Nós é que no final do filme, há pedaços de entrevistas em que o diretor toma um café ou uma cerveja com as pessoas que filmou e usa textos na tela para contar suas histórias. É um desperdício tremendo se valer de um elemento tão amador quando existe a possibilidade de aproveitar esse material humano. É interessante demais termos pessoas contando suas histórias de sobrevivência na europa durante a segunda guerra, falando em português sobre, como uma visão brasileira do assunto. Provavelmente vivemos os últimos anos do mundo em que teremos a oportunidade de conversar com pessoas que passaram por isso e ainda que tenhamos uns 30 minutos de escuta desses depoimentos, Bushatsky pega grandes partes dessas histórias e as usa como textos jogados num canto da tela. Ainda pior, o faz enquanto mostra conversas descontraídas entre ele e os entrevistados, que fariam um trabalho mil vezes melhor de inserir o diretor no filme do que suas aparições forçadas que não acrescentam nada na narrativa. É triste ver um material sendo mal trabalhado dessa forma.



Ocorre que na metade do filme começam a se traçar paralelos com outros imigrantes e refugiados - com um grande depoimento, o único não falado em português e que não parece se ligar com o todo da narrativa - muito mais muito brevemente mesmo se fala sobre como judeus e libaneses construíram uma certa elite no Brasil, depois sobre como diferentes pessoas de muitas origens ajudaram a construir a américa como um todo e chega ao ponto da ascensão do nacionalismo de extrema direita no mundo. Veja, são muitos assuntos para praticamente 30 minutos, e ainda que interessantes não são bem trabalhados, e enquanto isso há sempre trechos perdidos do diretor lá na Alemanha. O ouro desse documentário estava certamente nas entrevistas com os sobreviventes do holocausto, que parecem conversas com uma avó ou um avô. Tem esse ar familiar de quando sentamos ao lado de uma pessoa muito mais velha e ela quer falar por horas sobre sua história, como quem tenta não apenas se lembrar da vida que viveu, mas também passar suas palavras para frente, contar para as gerações futuras saberem o que aconteceu. Existe algo muito valioso no que esses entrevistados por Bushatsky tem a dizer, mas o filme os esquece por um tempo e depois não sabe aproveitar bem suas ricas histórias.


O “um pouco de mim” que poderia ser a própria parcela da narrativa de André, nunca aparece, ainda que lendo os materiais do filme seja possível aprender que sua ideia para o documentário nasceu de uma vontade de conhecer suas próprias origens, que carregam uma história bastante interessante também. Entre diversas falhas e uma conversa de mesa de bar que pretende filosofar sobre desigualdades da pior forma possível, é perceptível que o diretor está cheio de boas intenções, só realmente não sabe o que fazer.


Filme assistido a convite da Sinny Assessoria e Bushatsky Filmes

Um Pouco de Mim, Um Pouco de Nós chega aos cinemas em 7 de Setembro


 

Nota da crítica:

2/5




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